Clara Averbuck: Criar o filhinho para ser “pegador” só alimenta a masculinidade tóxica que é a raiz do machismo

Foto: Pexels
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“Fulano, e essa sua filha linda? O que você pretende fazer?”
“Rezar e jiu-jitsu.”
Vi esse diálogo ocorrer na minha frente ontem. É comum ouvir isso. “Vai dar trabalho”, “encrenca” etc. Agora, pensem comigo: já viram alguém falar isso de menino? “Vai dar trabalho”, “Vai ter que tirar as mulheres de cima” Não. Já viram falar isso pra mãe da menina? Também não. É sempre direcionado ao pai e sobre a filha.

Que dizer, a pessoa ainda nem cresceu, a sexualidade dela ainda nem se manifestou e já existe esse tipo de controle. Já tem alguém querendo escolher com quem ela vai poder ou não se relacionar. Já tem essa ideia de que a filha vai precisar da “proteção” do pai. Já tem um cabresto prontinho pra ser aplicado.

Olha, graças que eu não passei por isso. Meu pai nunca reprimiu minha sexualidade nem agiu como se fosse meu dono diante de outros homens que pudessem estar ameaçando seu reinado. Sempre tive a liberdade pra escolher com quem ia sair, e ele, mesmo não gostando de alguns, nunca se meteu, assim como minha mãe. Eles me deram o seguinte: educação, informação, autonomia e liberdade. E respeito, que sem isso não se constrói relação alguma que preste.

Minha filha tem 14 anos, e eu a estou criando pra ser uma mulher livre e responsável, que sabe o que faz e faz o que quer. Não agora, é claro. Ela tem que saber que não pertence a ninguém e que qualquer um que vier com esses papinhos merece um sacode. Então, por favor, por favor, não caiam nessa. Não reproduzam esse lugar-comum tão nocivo do pai que controla com quem a filha sai. A filha decide, gente. 2018.

Também é uma boa não criar o filhinho pra ser “pegador” e “macho alfa”; isso só alimenta a masculinidade tóxica que é a raiz de todo machismo, homofobia e transfobia, além de destruir a humanidade de meninos que ainda nem sabem quem são e oprimir sentimentos que são associados ao feminino, criando homens incapazes até de sentir empatia diante da dor do outro ou da outra. Sim, sempre foi assim. Não, não deu certo, mas temos a chance de mudar isso com as próximas gerações.

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