Clara Averbuck: Desde quando amor tem que ser de pegar?

Foto: Pexels
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Quando eu tinha 16 anos, me apaixonei loucamente por um rapaz na internet. Hoje em dia, isso é comum, esses amores virtuais, mas, acredite, em 1997 não era nem um pouco. Ninguém se via, ninguém se falava, acho que nem cheguei a ouvir a voz dele antes de entrar em um ônibus para Maringá e ir encontrar um dos meus primeiros amores.

Júlio, era o nome dele. Acho que devo ter visto uma foto bem ruim. Mas eu não estava nem aí: estava perdidamente apaixonada por Júlio, com acento, em quem eu nunca tinha pousado os olhos, que dirá as mãos, na minha vida.

Cabe dizer que, aos 16, eu era bastante, ahn, intensa, como uma boa filha de Oyá. Nossas conversas se estendiam por horas e horas, e eu já não estava mais nem aí pra escola mesmo, ou estudava à noite, nem lembro mais, mas sei que conversávamos sobre a vida, o mundo, o universo, amorzinhos, sei lá o que mais tinha na minha cabeça naquela idade. Certamente eu era uma tapada perto de parte desta geração de agora. As coisas iam bem, eu já tinha votado pela primeira vez, já tinha começado a escrever, aspirava uma carreira de cantora, gravava algumas coisas com meu pai, escrevia em caderninhos, ouvia Nina Simone e Chet Baker no meu discman e vamos voltar para aquela estrada rumo a Maringá.

O Júlio, ele tinha namorada. Mas ele também estava apaixonado por mim. E eu fui lá ver, então, o que íamos fazer a respeito, que nem quando era menina fui mulher de ficar esperando tomarem decisões por mim.

Cheguei. Algumas outras pessoas me esperavam, já que conversávamos coletivamente no saudoso IRC (velhos conhecedores entenderão), que, vale dizer, ainda é usado até hoje, mas não para que adolescentes se apaixonem e façam cagadas. Porque é claro que foi tudo uma grande cagada.

Eu, furacônica, cheguei na cidade do interior já causando e bebendo um troço que até hoje me faz perder o ar chamado Flor da Montanha, uma das piores coisas que já coloquei na boca. Até aí era romance, mas fiquei bêbada, apavorei o menino, que na época era Demolay, ou seja, aspirante a Maçom, e lembro de uns góticos e de rolar na lama vermelha e estar de blusa branca e olha, não sei mais, mas, quando acordei, era evidente que tinha arruinado tudo. Não tinha nem sinal dele. Voltei pra casa chorando, sentada no meu discman para que o CD não pulasse a cada buraco da estrada desgraçada, e deve ter sido em um desses buracos que meu coração se partiu pela primeira vez. I fall in love too easily, dizia Chet, I fall in love too hard, I fall in love too terribly hard. Ai, Clarinha, ai. Quanto sofrimento é o primeiro coração partido. Mal sabia eu o que viria depois nessa vida.

Pois hoje o Júlio me chamou no Facebook bem de madrugada, que é a hora em que estou escrevendo, eu disse que precisava trabalhar, chamei carinhosamente de “amor” e ele disse que eu também fui seu amor nunca concretizado. Vinte anos depois, eu sei que também fui o amor de um dos meus amores, um dos que eu nunca esqueci.

Hoje somos completamente diferentes, provavelmente reviraríamos os olhos para as posições políticas um do outro, apontaríamos incoerências, mandaríamos tomar no cu civilizadamente, mas um dia, há 20 anos, ele era meu amor e eu era o dele. Nunca aconteceu nada concreto, mas desde quando amor tem que ser de pegar?

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