Clara Averbuck: Discurso de ódio não é opinião, é preconceito puro

Foto: Reprodução/Instagram
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Como foi seu 2017?

O meu foi cansativo. Perda de direitos, falta de dinheiro, precarização do trabalho, violência, violência, violência. Contra mim, contra outras mulheres, contra indígenas, moradores de rua, usuários de drogas, contra pessoas negras. A cidade onde eu moro sendo rifada, e o prefeito em turnê mundial, tal qual um rock star, em jatinho com suas iniciais. O Executivo é uma piada, o Judiciário é uma piada, o Legislativo é uma piada. As notícias são tendenciosas. As pessoas se pautam por elas.

Essas coisas vão cansando, sabe? Estou escrevendo deitada, inclusive. Aí eu penso no meu privilégio: estou escrevendo deitada porque tenho casa, cama e computador. Estou escrevendo porque sou colunista de um jornal. Estou escrevendo porque tenho voz, e esta voz não pode estar assim cansada e desanimada. Pode? Pode, sim. É assim que eu e tantas outras pessoas estamos nos sentindo.

Vejo fotos de meus amigos na praia, na serra, no mato, pés na areia e na grama e não posso deixar de invejar. Vou ficar aqui em São Paulo mesmo, e não foi porque trabalhei pouco, porque não me esforcei, porque podia ter feito mais. Fiz o que deu, mas não deu. Ainda assim, tenho casa, tenho uns amigos, não vai ser tão ruim. A gente sempre espera que no ano que vem melhore, eu tenho mesmo esperança que melhore. 2015 foi pior. Em 2002, eu estava morando de favor. Em 2017, eu ao menos estou na minha casa, não é mesmo? 2018 vai ser melhor. Acredito. Quero acreditar.

Mas estou cansada. Esse trabalho é exaustivo, ainda que feito sentado ou deitada, como já disse que estou agora. Pra escrever, precisamos ler, estudar, saber do que estamos falando, e é exaustivo porque, entre centenas de outros problemas, estamos vivendo em uma época em que as pessoas não leem textos, mas respondem títulos e tweets como se soubessem do que você está falando. E outros, mesmo lendo, sequer entendem o que você está dizendo porque estão afoitos demais para responder com sua pré-discordância. Sabe aquelas pessoas que não escutam, apenas esperam a sua vez de falar? Pois.

Ó, canseira. Aí vem mais canseira ainda. Nesta semana, a BBC fez um matéria sobre gordofobia. Gordofobia é o preconceito contra pessoas gordas, que são estigmatizadas como preguiçosas, desleixadas, loucas por comida, que não conseguem conviver em cidades que deveriam comportar todos os corpos. Isso se chama acessibilidade. É acessível uma cidade onde uma pessoa não consegue passar na catraca de um ônibus? Não consegue caber numa cadeira? Onde uma mulher, minha amiga, precisou parir em uma maca de cavalo porque as do hospital não comportavam o corpo dela?

Magreza não é sinônimo de saúde, e gordura não é sinônimo de doença. E é esse estigma que deve ser quebrado. A matéria foi muito bacana. Aí, é claro, o humorista mais babaca do Brasil, cujo nome eu me recuso a citar, resolveu fazer piada com isso. Muito engraçado fazer piada com gordo, com preto, com mulher, nossa, que moderno, que revolucionário, minha nossa. Nem Ary Toledo riria disso hoje em dia, mas ele segue lá, atacando minorias. Sim, atacando.

Não, não é “só uma piada” quando ela reforça estereótipos que dificultam que essas pessoas vivam com dignidade. O humor é uma arma poderosíssima, tanto de mudança quanto de manutenção de preconceitos e opressões, e é isso que esse senhor faz.

Pois bem: a youtuber Alexandra Gurgel, que deu entrevista para a reportagem supracitada e teve sua imagem ridicularizada por esse homenzinho, não se curvou, fez um vídeo e conseguiu subir uma hashtag mundial: #GordofobiaNãoÉPiada. Dá um quentinho no coração ver que não, não vai mais ter silêncio, e que essas pessoas vão ter que aprender a calar a boquinha porque discurso de ódio não é opinião, é preconceito puro.

Adoraria escrever um texto de fim de ano cheio de conquistas e grandes votos, mas, neste momento, só consigo desejar que esse discurso enfraqueça, que comentaristas esportivos não se sintam mais confortáveis para dizer que “preferiam coca-cola com rato” do que com a imagem da Dragstar Pablo Vittar, que o jogo vire, porque assim não dá mais. Quando dizemos que “vai ter drag, vai ter trans, vai ter travesti e vai ter gorda e negra e mulher negra e gorda e mulher com voz”, olha, é isso mesmo. Aliás, a voz sempre foi nossa. Mas não tinha ninguém ouvindo. Agora vão ouvir. Estão ouvindo neste momento.

Feliz Ano-novo, leiam Djamila Ribeiro e revejam seus comportamentos preconceituosos, porque ninguém mais vai se calar.

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