Clara Averbuck: “E aí, vai casar de novo?”

Foto: Pexels
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Vivem me perguntando se eu quero “casar de novo”. Apesar de essa pergunta ser muito comum, nunca deixo de me espantar. Como assim, se eu “quero” casar de novo?! Como é que eu vou saber?

Já acho esse conceito de “querer casar” todo errado. É assim que acabamos em ciladas, minhas queridas: o desejo do casamento, o vestido, a cerimônia, a vida de comercial de margarina, a conchinha, os eventuais filhos, tudo isso é uma construção muito frágil e, apesar de perdurar, é difícil de dar certo como se imagina. Existir, existe. Acontece toda semana. Mas quem disse que funciona? Funcionar depende de encontrarmos uma pessoa legal que some ao nosso lado – e que não nos faça sumir. E também não suma diante de responsabilidades, desde a afetiva até a louça e as tarefas domésticas. Quantas vezes casais fazem planos de vida inteira e acabam por se separar em meses porque os tais planos eram irreais? Porque a convivência não deu certo? Porque, ó pai, a necessidade do casamento era maior do que a relação com o outro?

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O que eu gostaria de responder a essas pessoas que me perguntam se eu “quero” casar de novo é: olha, se eu encontrar alguém que respeite minha individualidade, saiba que não vai ser o centro da minha vida, que gosto de ficar sozinha, que não negocio minha autonomia, que não gosto de ser colocada em um pedestal, que tenho uma filha adolescente que demanda muita atenção, que preciso de silêncio pra escrever e espaço na cama, entre tantas outras coisas, eu talvez queira me relacionar com essa pessoa, quiçá dividir o teto com ela em algum tempo. Porém não sei se vou ter um encontro desses. Encontros são raros. Então, não vou ficar tentando encaixar ninguém nas minhas expectativas, pois isso apenas gera frustração e pressiona as outras partes, e também não vou ficar procurando, porque né, tenho mais o que fazer.

Mas já fiz isso. Já casei no impulso da paixão achando que “era ele”. Ele, que eu mal conhecia mas em quem joguei todas as minhas expectativas. Spoiler: deu errado. Não é nem que durou o tempo que deveria durar, pois é assim que vejo alguns términos. Pra sempre é tempo demais. No meu caso, deu errado mesmo, deu ruim. Mas é claro que essa é a minha experiência pessoal, e, às vezes, pode dar certo. Às vezes, os casais ficam felizes juntos por bastante tempo. Mas o modelo tradicional e esse negócio de abdicar de si não é comigo e não deveria sequer ser o único modelo aceito com naturalidade.

É claro que, em um relacionamento, algumas coisas devem ser negociadas; é muito chato viver com uma pessoa inflexível dizendo “eu sou asssiiiim” pra evitar qualquer autoanálise ou discussão. Mas quem é criada pra ceder? Isso mesmo, a mulher. E se você não cede é o quê? Megera. Manda no marido. Esse aí, coitado, não apita nada em casa. Esse aí, essa aí, esse aí, os nada bons e bastante velhos papéis pré-definidos de gênero.

Sim, isso tem a ver com gênero. Ocorre que não desenvolvemos nossas personalidades no vácuo, e, sim, dentro de uma sociedade cheia de expectativas, e frequentemente características vistas como qualidades em homens são vistas como defeitos em mulheres. O cara é decidido, a mulher é mandona. Homem é focado, mulher é egoísta. São conceitos bastante difíceis de desconstruir, mas estamos aí pra isso.

Vejo mulheres incríveis de 30 e poucos anos com carreiras florescendo e vidas fantásticas achando que “falta alguma coisa”. Marido. Filho. Procurando o verdadeiro amor dos contos de fadas em qualquer um que cruze o seu caminho, reclamando que não tem homem decente, que são todos uns frouxos – e isso é assunto pra outra coluna, a masculinidade em crise e os homens junto. Estamos descompassados.

Carmen da Silva, escritora gaúcha e uma das minhas favoritas, escreveu:

“Muitas mulheres se casam esperando que o amor lhes dê felicidade; trabalham pensando que um emprego lhes dará independência, ou estudam com o objetivo de que uma carreira lhes dê prestígio. Nos três casos, partem de premissas errôneas: a felicidade, a independência, o prestígio e os demais bens da vida não são outorgados a ninguém em bandeja de prata. O amor de outrem, o trabalho e a carreira em si não dão nada; constituem apenas instrumentos que nos ajudam a construir o que desejamos. A palavra construir sugere a ideia de tarefa, de esforço consciente e intencional, nada mais oposto à atitude passiva e estéril de esperar que as coisas fundamentais nos chovam do céu”.

Então: vamos viver sem colocar as expectativas no outro?

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