Clara Averbuck: “É essencial que o homem repense a masculinidade como lhe foi ensinada”

Foto: Pixabay, Divulgação
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Há homens percebendo que tiveram uma criação equivocada, que suas atitudes com as companheiras e mulheres de seu convívio não foram bacanas no passado e procurando mudar. Maravilhoso e essencial que isso ocorra, e fico particularmente feliz de ver amigos se dando conta de que precisam repensar muita coisa. Aí eles perguntam: mas como?

Bom, é essencial que o homem repense a masculinidade como lhe foi ensinada. Não pode chorar. Não pode demonstrar sentimento. Tem que ser machão. Tem que ser muito machão. Tem que ser garanhão desde antes de saber o que desejo significa. Tem que pegar as menininhas. Tem que tem que tem que. Conversem entre si, chapas. Abram os corações que mandaram que vocês fechassem desde cedo porque é “coisa de mulherzinha”. Coração é coisa de gente.

Se é difícil para as mulheres desconstruir o que nos foi ensinado, imagino que para os homens deve ser muito pior. É difícil, eu sei. Mas vejam: não coloquem mais essa responsabilidade nas costas das mulheres. Já estamos cansadas e sobrecarregadas, inclusive pensando nas nossas próprias desconstruções, então, meus amigos, se juntem e conversem. Não sabem por onde começar? Comecem lendo. A literatura produzida por mulheres sobre a condição feminina é vasta. Comecem com um basiquinho, um livrinho tão curto que dá pra ler em uma sentada, Sejamos Todos Feministas, da Chimamanda Ngozie Adichie. Tem em qualquer livraria. Entendendo o básico, você pode ler Mulheres, Raça e Classe, da Angela Davis.

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Mas ué, o assunto não era masculinidade? Sim, é. E, para que ela possa ser repensada, os homens precisam parar de ver o homem como sujeito universal e entender que existem outras perspectivas. Começar pela da mulher já vai ser um adianto.

E sim, isso vai ter que acontecer, batam os machões orgulhosos no peito ou não. O mundo está mudando, a sociedade está mudando e, ainda que haja uma onda conservadora universal, não há mais como barrar os avanços de igualdade de gênero. Quer dizer: vocês vão ter que correr pra não perder o bonde da história. Vocês, homens, que eu sei que leem esta revista às vezes escondido por medo de serem ridicularizados.

Aliás, já que vivem pedindo conselhos de como ser um “homem melhor” e entender o feminismo: percam o medo do ridículo. Nós, mulheres, fomos ridicularizadas por anos até ter coragem de falar e produzir. Ainda somos. Então, vamos lá: percam esse medo de que o coleguinha ria de você e diga o que pensa diante de uma piada machista na mesa do bar em vez de se calar. Dê um toque no seu tio que fala impropérios para mulheres de todas as idades, que poderiam inclusive ser suas filhas, quando passam na rua. Ajam. Sem medo. É difícil quebrar esse círculo da masculinidade, eu sei. Mas pensa: você quer mesmo andar com outros caras que sequer se propõem a discutir essas coisas? E aí você vai se calar diante das bobagens que eles falam? Outro dia um homem disse, em uma palestra minha: se excluir todos, não sobra nenhum. Não pode ser, né? Não é possível que todos os seus amigos sejam impossíveis de reeducar. Se forem, na moral? Arrume outros amigos. Pode até doer. Mas, prometo, em alguns anos, você vai olhar pra trás e pensar como foi que aguentou tanta groselha durante tanto tempo. Desde já: de nada.

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