Clara Averbuck: encontrar nosso lugar é uma das coisas mais importantes e subestimadas desta vida

Foto: Pirabay
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Hoje, já acordei com a Solange, da Imobiliária, me mandando áudios antes das 8h. Eu sabia do que se tratavam. Eu tenho dívidas, e elas chegaram antes do café. Deve ser horrível mesmo ser proprietário de imóveis alugados para escritores, músicos, artistas e frilas no geral; eles nunca sabem quando vão receber e você também não. É a crise, né? Não. Antes da crise já era assim. Lembro do meu pai sofrendo pra receber no começo do Tangos e Tragédias, aliás, no começo, no meio, no fim e agora. Seria realmente muito bacana se os contratantes cumprissem a parte deles sem a gente viver nessa vida de cobrança. Mas não, aqui no mundo real não é assim e vivemos em perrengue. Quase todos.

Mas não me deixo abater (mentira, deixo sim, mas não me entrego), levantei, acendi uma vela pra Ogum, fiz café, passei aspirador na casa e fui pra minha segunda aula de pole dance. Finalmente encontrei algo que me traz alegria de viver: pole é amor. Já fiz de tudo, inclusive algumas lutas, mas quando entrei no Maravilhosas Corpo de Baile, soube que lá era o meu lugar. E encontrar nosso lugar é uma das coisas mais importantes e subestimadas desta vida. Não é meu único lugar, é claro; tenho este escritório, onde trabalho, que é meu lugar. Tenho, temos muitos lugares. Mas aquele é o lugar onde meu corpo fica confortável pra tentar o que quiser, sem julgamentos, sem olhares indesejados, sem regras rígidas, apenas umas maravilhosas mesmo fazendo uns nós em seus corpos que, no começo, é difícil de acreditar que somos capazes, mas, cara! Na primeira aula, eu já estava de cabeça pra baixo naquele poste me sentindo uma deusa. Por isso, hoje eu não podia me entregar e lá me fui para o Maravilhosas encontrar as Maravilhosas e literalmente virar meu dia.

Outras colunas da Clara
:: “Doente está o Brasil, que não para de regredir e quer patologizar a sexualidade”
:: “Ninguém é imbatível, cada um lida com a dor do jeito que dá”
:: A maternidade não te define

Eu amo escrever. Mas estou cansada de uns assuntos que eu sei que são necessários, mas ai, são quatro anos repetindo as mesmas coisas porque as pessoas não entendem, elas não entendem que existem questões de saúde pública que não passam por religião, não entendem que discurso de ódio não é opinião, elas não entendem, e temos que repetir e repetir e isso suga a vontade de escrever. Escrever ficção acaba ficando em segundo plano quando temos que lidar com hidrofóbicos que repetem discursos que nem entendem feito papagaios insanos. Eu queria mesmo era sentar no meu escritório e terminar meu livro, mas não dá tempo. O urgente me suga, e meu cérebro cansa. Mas o romance, aquele que mora no peito, ainda vive em umas letras de música que logo pipocarão por aí.

Não tiro férias desde 2011. Lembro de olhar pro mar e chorar porque era meu último dia de férias, meu último dia longe de um lugar que eu odiava muito, onde eu sentia o peso de uma bigorna ao pendurar o crachá no pescoço, os olhares de reprovação de geral porque é assim mesmo a vida, não pode reclamar, não pode bufar, não pode suspirar, tem que se conformar, é isso, é assim, é assim, tem coisa pior, você tem um emprego, sente-se e não reclame. Eu sentava e reclamava, bufava, suspirava. Estava tudo errado. Aquele era o lugar errado para mim e não havia nenhum outro lugar certo para me aliviar, nenhuma válvula de escape além dos uísques caros que eu bebia sozinha ou com pessoas que eu nem queria que estivessem lá. Não sei quantas vezes bebi sozinha até dormir. Eu odiava a minha vida, mas pensava: estou ganhando dinheiro, estou empregada, não posso reclamar, isso enquanto escrevia coisas que sugavam toda a energia criativa que eu tinha pra escrever. Por anos não fui escritora, fui funcionária de uma redação. Funciona para muitos. Pra mim, era uma morte.

Hoje, eu posso até ser acordada pela Solange e ter meu pacote de dados interrompido. É chato. Mas tem o pole, os gatos, as poesias, os livros, as viagens, as pessoas, o amor e a liberdade sem a qual eu não sei viver. Cada um tem seu lugar. Estou, aos poucos, encontrando os meus. Eu sei que temos pressa, mas com pressa eles fogem da gente. Calma que eles vêm.

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