Clara Averbuck: “Essas senhoras francesas não entenderam a proposta das campanhas antiassédio e de denúncias”

Catherine Deneuve em Berlim - Foto: AFP
Catherine Deneuve em Berlim - Foto: AFP

“Homens devem ser livres para abordar mulheres”, diz um manifesto assinado por mais de cem artistas e intelectuais francesas, incluindo a atriz Catherine Deneuve.

Sabe, eu concordo! Homens devem ser livres para abordar mulheres que demonstrem interesse e reciprocidade. Isso se chama flerte. Ninguém em sã consciência quer acabar com o flerte. O flerte é lindo, a gente ama o flerte. Flertem, flertem muito, é uma delícia.

Mas assédio não é flerte. Coação não é flerte. Abuso de poder não é flerte. Flerte é outra coisa.
E sabe o que mais? Se os homens deveriam ser livres para abordar as mulheres, bom, as mulheres deveriam ser livres para dizer não e serem ouvidas, as mulheres deveriam poder trabalhar em paz sem ter medo de assédio, mesmo o velado, aquele que não é explícito mas é constrangedor _ você, mulher que já passou por isso, sabe do que estou falando. As mulheres deveriam ser livres para decidir o que querem sem medo de retaliação profissional, de boicote em suas carreiras. Sem medo. Já não nos basta o medo de sair na rua, de assédio no transporte público e privado, o medo de que nossos corpos sejam violados, temos de ter medo também de dizer não dentro do nosso ambiente de trabalho e colocar em jogo nossas carreiras?

Acho que essas senhoras não entenderam muito bem a proposta das campanhas antiassédio e de denúncias, assim como muitos dos homens com quem os movimentos de mulheres vêm tentando conversar há tempos. O que queremos é paz, e paz apenas. Queremos ser tratadas como indivíduos que merecem respeito independentemente de nossas escolhas e condutas sexuais consentidas com quem quer que seja. Consentidas. Consentimento, sabe?

Exagerada não é nossa reação, é o tempo que ficamos em silêncio diante de assédios em todos, eu disse TODOS os meios, do cinema às redações, dos bastidores televisivos aos cartórios, dos estúdios musicais às salas de programação de TI, nenhuma de nós está livre disso.

O que essas senhoras que chamam quem quer parar o assédio de moralistas não compreendem é que esses mesmos homens que assediam mulheres e usam seu poder para conseguirem o que querem são, na verdade, tão ruins quanto as instituições religiosas e reacionárias, ou até piores, pois não há nada pior do que ter que viver no sobressalto de estar entre o famoso “fogo amigo”. Argumentar que tem gente pior não é sequer argumentar, é relativizar algo grave e um tiro no pé.

E outra: quando foi que os homens foram oprimidos ou reprimidos sexualmente? Até hoje os meninos são incentivados a essa masculinidade tóxica, essa macheza forçada, em toda a história casos extraconjugais foram tolerados quando eram os homens que cometiam, afinal, eles “tinham necessidades”. Inclusive foram tolerados abusos físicos e psicológicos pois era assim que era e pronto. As mulheres tinham que aguentar, era assim que era.

Podia até ser. Mas não vai ser mais. As pessoas evoluem, o mundo muda. Quem se incomoda geralmente são os privilegiados que se sentem ameaçados por avanços. Podem fazer seus manifestos, é claro, mas vai ter resposta, pois estamos, quase todas, pelo jeito, FARTAS de assédio. Fartas disso tudo.

Liberdade sexual, minhas queridas senhoras, é poder dizer não e ser respeitada.
E vamos lembrar que as bruxas queimadas eram mulheres.

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