Clara Averbuck: “Jamais sonhei em ser mamãezinha. Não poderia, isso não faz parte de mim”

Foto: Pexels
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Eu nunca quis ser mãe. Era algo que sequer passava pela minha cabeça. Eu queria escrever, viajar, cantar, morar sozinha, fazer coisas, passar dos limites, viver. Aí um dia eu descobri que estava grávida. Foi o maior susto da minha vida. Tinha acabado de lançar meu primeiro livro, Máquina de Pinball, morava temporariamente com meu namorado, não tinha dinheiro, não tinha contrato fixo, enfim, foi um caos.

Mas, apesar da surpresa, da falta de planos, de tudo, eu quis. Não foi ali que eu “virei mãe”, mas eu quis. E fiz. E tive a Catarina em casa, com parteira, há quase 15 anos, em uma época em que parto domiciliar era visto como coisa de gente louca, selvagem e inconsequente. Eu não sabia o que me esperava. Não tinha ideia. Ninguém fala a verdade sobre a maternidade.

Como eu disse, jamais sonhei em ser mamãezinha. Não poderia, isso não faz parte de mim. A clássica mãe abnegada não combina comigo; não sou e jamais seria essa mãe. Sequer tentei, pois isso me deixaria completamente maluca, tentar ser algo que não sou porque dizem que é assim que tem que ser. Acho lindo que algumas mulheres tenham esse enorme prazer de se dedicar à maternidade, mas eu não sou assim e sei que muitas mães também não são. Acho uma balela e uma falta de respeito sem fim dizer que “só mãe sabe o que é o amor”. Aí o filho nasce, a mulher não sente o amor imaculado e imediato da santa mãe e acha que o problema é com ela. Não é.

Veja bem, eu amo demais minha filha e acho incrível que esteja formando uma pessoa que eu acredito que virá a ser uma mulher fantástica, mas não é nem dela que estamos falando. É sobre o que ser mãe representa. É sobre todas as cobranças recaírem sobre as mães, de todas as coisas que acontecem com os filhos.

Mãe é mãe, pai é pai, né? Mulher nasceu pra isso, afinal. Nasceu sabendo, com o mágico instinto materno que toda a mulh… Não. Criei por anos minha filha sozinha, apenas com meus recursos financeiros e emocionais. “Normal”, podem pensar alguns, mas vos digo: normal uma ova. Criar um filho sem contribuição alguma é uma tarefa hercúlea que foi normalizada por nossa sociedade que coloca toda a responsabilidade em nós.

Ser mãe não tem necessariamente a ver com seu filho, mas com o que uma sociedade inteira joga nas suas costas. Com família dando pitaco e se metendo em absolutamente tudo com julgamentos desagradáveis que servem pra que? Isso mesmo, nada, porque ajudar mesmo ninguém ajuda. Tem que trabalhar e não tem com quem deixar? Desnaturada. Está cansada? Quem mandou abrir as pernas? Agora aguenta. Está sobrecarregada? Quem mandou não saber escolher marido? Está exausta? Azar o seu, é assim mesmo, padecer no paraíso. Cadê esse paraíso?

Quando você é mãe, sua vida é controlada por todo mundo e os julgamentos vêm de todos os lados.
Já os pais, nossa, são heróis quando fazem o mínimo. Troca fralda? Que lindo! Leva ao médico? Uau, que homem! Vai na reunião da escola? Um exemplo de pai. Pergunta se alguém elogia quando é uma mãe? Não, porque é a “nossa função”. Mil olhos revirados.

Se cobrassem dos pais um terço do que cobram das mães, nossa sociedade mudaria drasticamente. Ou, melhor ainda: se não precisássemos cobrar e eles soubessem dividir funções, aí sim, tudo mudaria drasticamente para melhor, com filhos tendo noção de que a responsabilidade deve ser de ambos.
E é essa a reflexão que eu deixo para o mês das mães. Menos nas nossas costas, por favor. Inclusive acredito que a comemoração poderia muito bem ser férias da maternidade, spa, filhos lavando louça, massagem nas costas e paz.

Sempre lembrando que nenhuma mulher deve se sentir na obrigação de querer ter filhos. Você pode não querer. Você não vai ser completa apenas se tiver filhos, essa não é sua única função no mundo e está tudo bem.

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