Clara Averbuck: Sobre homens que chamam mulheres de “mal comidas”

Foto: Pexels, Divulgação
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Sempre que vejo um homenzinho xingando uma mulher de mal comida me dá um negócio aqui dentro, sabe? É tipo uma azia na alma.

Primeiro porque nunca vi chamarem homem de mal comido. Se o xingamento só tem versão pra mulher é o que?

Ma-chis-mo.

Lamento dizer, mas a pior fase da minha vida coincidiu justamente com a fase que eu tinha sexo fantástico todos os dias com o homem mais lixo que já conheci. Como isso poderia fazer de mim uma mulher realizada, sorridente, saltitante, sem problemas?

A felicidade de uma mulher não gira em torno de uma piroca. Um pênis. Um pinto. Um membro.
Ou, pasmem: um homem! Você sabia que algumas mulheres não se sentem sexualmente atraídas por homem, com piroca ou sem? Pois é.

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Pare e pense: você acha realmente que uma mulher que você acha chata teria sua vida magicamente resolvida por causa de um homem? Mesmo? As contas dela estariam automaticamente pagas, os problemas no trabalho desapareceriam, assim como tudo que ela passou desde que nasceu e depois que cresceu? Uma piroca resolve tudo? Uma piroca mágica?

Não.

Sem contar que é um xingamento meio burro, porque se a mulher é “mal comida”, quem “comeu mal”? Um homem? Não tem um homem de verdade na vida dela, um homem viril, um homem que representa? Nenhum homem quer, nenhum homem encara?

Dizer que uma mulher é mal comida é dizer que a mulher só funciona se tiver um homem.

Já chega disso.

Se a mulher dá pra quem quer é vagabunda – e ainda tem que lidar com homenzinho achando que ela ser livre sexualmente significa que é só chegar, ignorando que a mulher é sujeito da própria vida, não objeto do desejo de outro.

Se a mulher se coloca de maneira assertiva – pode estar ela certa ou não, não importa: é mal comida.
Quando é que vão parar de usar a sexualidade das mulheres contra elas, ó céus, ó Orixás, ó Deuses de Todas as Religiões, ó bom senso?

Já está na hora do senso comum absorver que a vida, a felicidade e a existência da mulher não orbitam em volta de homem.

É, caras. Vocês já não são tão importantes assim. É por isso que eu vivo batendo na tecla de que a masculinidade precisa ser reinventada, rediscutida, e não, isso não significa que vocês vão ser obrigados a usar batom e saia de tule, significa apenas que o mundo não vai mais girar em torno de vocês, suas escolhas, seus desejos e suas visões de mundo.

Dá tempo, vai. Se não der, pelo menos criem uns filhos que não reproduzam essa lógica falida de mundo.

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