Clara Averbuck: A maternidade não te define

Foto: Pexels, reprodução
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Eu sou mãe.
Como você me imaginou?
O que isso diz sobre mim?

Aposto que já vieram mil adjetivos com flores, mãezona, compreensiva, amorosa, tons pastel. Bom, eu não sou essa mãe. Só pra ilustrar, sou mãe há quase 14 anos e jamais me senti contemplada por uma campanha publicitária de Dia das Mães. Primeiro eu pensava que não era o perfil ordinário de mãe, me achava a diferentona. Depois percebi que existia toda uma gama de mulheres no meu perfil, sim, e em outros muitos, que eram mães há até mais tempo do que eu mas nunca tinham aparecido. Mães tatuadas. Mães criadoras. Mães escritoras, musicistas, cantoras. Mães executivas, mães faxineiras, mães dentistas, mães negras, índias. Segundo a publicidade, só existem mães brancas, né?

Estamos no glorioso ano de 2017 e, quando pensamos em mãe, ainda estamos condicionadas a pensar em um estereótipo que foi usado por tanto tempo que grudou nas nossas cabeças como um chiclete velho e não desgruda. Sim, eu disse “estamos”. Eu também estou. Absorvemos o que há inconscientemente, e mudar isto é um exercício diário. É difícil não pensar na mãezona. A mulher a quem recorremos quando tudo mais está errado. Comida da mãe. Colo de mãe. Casa de mãe.

Ocorre que maternidade não define a mulher. A mãe e o filho são indivíduos independentes um do outro. Ser mãe é criar um filho – não gerar, apenas. “Ser mãe” não diz nada sobre a mãe ou sobre o filho ou sobre a criação ou o ambiente familiar. Não significa ser compreensiva e acobertadora de erros, não significa cobrar ou não que o filho estude e seja o primeiro da classe. Tampouco significa que a responsabilidade dos filhos deve estar nas nossas costas.

Às vezes, quando vejo alguns grupos de mulheres conversando sobre maternidade, dou uma chacoalhada na cabeça e olho no telefone pra checar em que ano estamos. Nada contra quem escolhe ser bela, recatada e do lar; apenas temo que essas mulheres virem pessoas sem autonomia e, caso sofram qualquer tipo de violência ou passem por adversidades, se vejam sem independência e sem ter a quem recorrer. Sem nem mencionar que: esse já é o lugar que esperam para nós. O lar, o âmbito familiar, o particular. E também que é um privilégio de poucas poder fazer essa escolha. Apesar de esperarem de nós um tipo de subserviência e silêncio, existe um grande número de mulheres que carrega sozinha a família nas costas, sem sequer receber pensão do genitor dos filhos.

É só ver o julgamento que mães com vida pública sofrem para saber que estamos vivemos tempos bem loucos: lembro daquela foto de Gisele Bundchen amamentando e sendo criticada. Querem o que, gente? Se ela tivesse deixado o filho, seria julgada como relapsa. Se leva, nossa, coitada da criança. Quer dizer, nunca vai estar bom. Então, querida mulher que é mãe, o que eu tenho pra te dizer neste dia, além de parabéns, é: não deixe que os ideais irreais sobre maternidade azedem essa coisa bacana/trabalhosa/maravilhosa/insuportável que é dar instrumentos para que uma pessoa cresça, independentemente de você concordar ou não com os rumos que ela vai tomar. Aliás, está aí uma ficha que me caiu apenas esses dias: criamos os filhos, sim, mas eles não são “nossos”. São deles mesmo e devem ser criados para o mundo.

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