Clara Averbuck: Mudar é bom, mas mudança é um pesadelo

Foto: Pexels
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Mudança é legal, né? Mudar de casa, mudar de ares. Não. Mudança é o inferno. Caixas. Bagunça. A bagunça que tinha dentro dos armários esfregada na minha cara. As gavetas, senhoras e senhores, as gavetas, os sapatos, os livros, por que alguém tem tantos livros? Vou doar tudo. Não, não vou. Desculpa, livrinhos lindos, eu amo vocês. Não. É muita tralha, muito entulho. Papel. Papéis. Os quadros. E aquele sofá?

Eu vou jogar aquele sofá no lixo. Não. Onde eu vou sentar? Compro outro. Não, não tem dinheiro. Cobre com a cortina e deixa assim, depois a gente vê. Cabe a barra de pole dance na sala? Cabe. E as telas, cabem? Não. Vão ter que caber. Os gatos estão revoltados e mijam em tudo. Nas roupas. Nos sapatos. No sofá. Eu vou jogar aquele sofá no lixo. Não. Eu vou pegar uma cachorrinha e ela vai comer o sofá. Os sapatos, não. Por favor. E cama? Lá já tem cama. Caiu o dinheiro da mudança? Não caiu ainda. Vai ter que cair. Alguém me ajuda? Não. Sim. Minha amiga tem uma fiorino. Já instalaram a internet, mas eu não tenho onde sentar. Escrevo na cama. Pelo menos tenho casa e tenho cama. Dezessete anos em São Paulo, já não tive nem casa, nem cama, nem dinheiro da mudança, nem amiga com Fiorino, nem namorado, nem filha e nem gatos. Não, pera, gato eu tinha. Sempre gatos. Eu vou pegar uma cachorrinha, e ela não pode comer os gatos.

Pinheiros, Vila Madalena, Sumarezinho, Santa Cecília, Vila Mariana, Vila Clementino, Centro, Consolação, Higienópolis, agora Bom Retiro, mas o CEP diz que é Campos Elíseos, Champs Elysées, chapa, logo depois do Minhocão, perto da Marechal Deodoro, com muitos mercados coreanos, padarias, lugarzinhos, um bairro, gente na rua, o Dono da Padaria perguntando se estamos gostando do bairro? Estamos, sim. É térreo, quando abro as janelas escuto as pessoas e suas conversas passageiras, às vezes com vontade de enfiar a cabeça pela janela e completar alguma coisa, dar um conselho, sabe? Não.
As caixas. As roupas. Os quadros!

Os gatos. Os pratos. As panelas e os talheres. O que eu vou fazer com a minha penteadeira? Alguém quer comprar? Não. A mudança é sábado. Vai dar tempo. Me ajuda, filha? Não. Ela tem prova. Eu tenho trabalho e dívidas. Pode beber? Não. Pode sim. Não dá pra passar por isso sóbria. Vou escrever pra proprietária desabafando. Não achava que esse apartamento seria meu tão rápido, achei que teria mais um mês pra arrumar as coisas. Não. Terça eu vou pra Porto Alegre, bem no meio da mudança, eu e ele. As caixas, os gatos, a filha: não. Ih, vou precisar de malas. Tira as coisas dali. As meias estão junto com o lustre e alguns envelopes, bolinhas de gude, uma chave Phillips, um pacote de halls e uma unha postiça. Mudar é bom, né? Vida nova. Vontade de jogar tudo no lixo. Vontade de ir embora e deixar um bilhete: vende aí. Não. Vou empacotar. Alguém me ajuda? 17 anos de São Paulo e virei uma acumuladora. De onde eu tirei dinheiro pra comprar essas coisas? Não é possível. Vou vender tudo. Não. É meu. Vou precisar. Guarda ali. Que caos. Guarda o caos na saletinha. Não. Não tem mais saletinha nem onde esconder a bagunça. Vou ter que lidar com ela. Melhor assim. Sim. Não. Melhor assim.

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