Clara Averbuck: Não vou namorar com você não, fi

Foto: Betina Humeres, especial
Foto: Betina Humeres, especial

Sou meio atrasada nos hits do momento, confesso. Minha filha de 14 anos e minha amiga de 21 vivem tirando com a minha cara porque estou sempre por fora de: memes e hits. Tudo bem, eu tenho 38 anos e uma respeitável coleção de discos de música velha, que, admito, já foi muito maior e teve que ser vendida e reduzida a 1/4 por motivos de: fiquei sem trabalho e era a única coisa de valor que eu tinha. Devia ter vendido pra alguém que me vendesse de volta depois, mas no desespero a gente não pensa nessas coisas.

Agora, desespero mesmo me bateu hoje, quando resolvi checar as músicas mais ouvidas do Spotify. Me deparei com a seguinte aberração: Vidinha de Balada, de Henrique & Juliano.

Vamos lá, sofram comigo:

Oi, tudo bem?

Que bom te ver

A gente ficou, coração gostou

Não deu pra esquecer

Oi, tudo bem? Que pena, aqui não bateu assim.

Desculpa a visita

Eu só vim te falar

Tô a fim de você

E se não tiver, cê vai ter que ficar

Se eu não tiver, vou fechar a porta na sua cara, se você insistir na campainha vou abrir a porta e gritar com você com um soco inglês numa mão e uma garrafa na outra porque a polícia ia demorar demais :-)

Eu vim acabar com essa sua vidinha de balada

E dar outro gosto pra essa sua boca de ressaca

Quem decide da minha vida sou eu, se eu quiser ir pra balada todo dia o problema vai ser meu e o gosto da minha boca neste momento é do sangue da minha úlcera que você está fazendo sangrar de desgosto e asco com esse discurso abusivo.

Vai namorar comigo, sim!

Não vou.

Vai por mim, igual nós dois não tem

Sabe quando que eu ia namorar com um homem com discurso imperativo assim, ainda que o sexo fosse dos deuses? Nunca. Como diz a Corle, quer mulher sem autoestima, vai procurar em 2010. Aqui não. Sozinha é melhor.

Se reclamar, cê vai casar também

Tente me obrigar pra ver, amore!

Com comunhão de bens

Depois mulher que é interesseira, hein?

Seu coração é meu e o meu é seu também

Meu coração é o órgão que bombeia sangue pro corpo e ele é bem meu. O seu, se quiser doar em vida, olha, fique à vontade.

Vai namorar comigo, sim!

Vou não, fi. Vou não.

Sério. Essa música é o puro purê do discurso abusivo. E o que mais me fez sofrer foi ouvir a versão ao vivo em que centenas de meninas faziam coro nesse refrão horroroso. Desde quando obrigar alguém a fazer algo é romântico, mulheres? Sério. Vamos parar pra pensar? De novo, não é só uma música, é a normalização de um discurso e de um comportamento violento, é o cara que puxa seu cabelo na balada, que não aceita não, que força sexo, que força afeto, que força todas as barras possíveis e imagináveis. Não, amigas, não, não, isso não é romântico, não é bonito.

E depois é o funk que promove violência, né? Meus amores, violência de gênero é norma na nossa sociedade, tem no rock (ô, se tem), tem no rap, tem no funk e é claro que tem no sertanejo. Mas é incrível como passa batido no sertanejo, não é mesmo? Sempre que escuto um treco desses eu fico passada.

Fico estarrecida e triste de ver que isso é um hit. Que os shows enchem. Que eles enchem as cuecas de dinheiro e possivelmente se relacionam com muitas fãs. Que tristeza, que mundo errado, que discurso horrível, que mundo errado. Queria propor boicote a uma porcaria dessas, mas não adianta, adianta? Então me resta propor reflexão: é ISSO que você espera de um relacionamento?

Que os orixás, as deusas conhecidas ou desconhecidas de todas as dimensões me “dibrem” de homem assim.

Aliás, homens: VOCÊS acham isso normal? Não pode ser.

Depois a gente reage com violência e, nossa, como elas são raivosas. Como é que não se fica com raiva diante de uma letra dessas?

Evolua, humanidade, por favor. Assim não está dando.

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