Clara Averbuck: O amor e a cilada

Foto: Divulgação
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O amor sempre foi uma tormenta pra mim. Sofria, sofria, sofria, como eu sofria. Sofria quando não tinha, sofria quando tinha e me sentia sufocada. Sofria quando magoava, sofria quando era abandonada e sofria quando abandonava. Isso tudo antes dos 25, quando eu achava que já sabia tudo sobre dor. Certa feita, achei que fosse morrer de desgosto. Vieram outros piores. Nunca foi bom. Eu culpava os homens, eu culpava a vida, eu culpava a covardia, os jogos de poder, a jaula em que tentavam me colocar. Eu ficava arrasada, me arrastava e escrevia. Pra escrever era bom.

Um dia conseguiram me enjaular. Eu não caibo em jaula. Fiquei doente. Demorei anos pra ficar de pé. Anos. Anos pra ficar sã. Anos pra me enxergar de novo. Anos. Eu achava que tinha sido um grande amor, e a mágoa era proporcional à destruição que ele deixou.

Então, comecei a fugir. O menor sinal de sentimento me despertava um pânico e uma vontade incrível de sair correndo para nunca mais voltar. Vai dar errado, pensava, vai dar errado mesmo, pra que é que eu vou ficar aqui? E fugia do tal “amor” como um gato de rua foge diante da visão de um cachorro vagabundo. Eu não quero, eu dizia, eu não gosto, eu tenho medo. Eu morro de medo. Não tenho medo de altura, de mar, de ladrão, de fracasso, de morrer. Mas o amor me causava pânico. Como é que uma coisa como o amor romântico, tão bonita, pode causar pânico em uma mulher?

Faz pouco tempo que fui entender que o amor romântico, como é construído, não é nada belo. É uma armadilha, uma ilusão, uma construção nociva que cria expectativas irreais e trata as pessoas como posse. Era isso que me fazia sofrer. Não era o sentimento, era um conceito entranhado em mim e em todo o mundo onde vivemos. Esse “amor” eu não quero mais.

Só que é fácil falar, né? É muito fácil dizer “descobri o que há de errado, não quero mais”, quando fomos criadas dentro de uma lógica, a de que não somos nada sem um homem ao lado. Não somos nada sozinhas. Uma coisa é saber. Outra coisa é conseguir fazer com que isso entre em nossas cabeças e corações de fato.

Reitero: é muito legal todo o flerte, a paixão, o frio na barriga, os olhares cúmplices, andar de mãos dadas. Eu adoro. Mas isso não tem nada a ver com o amor e os relacionamentos como são construídos na sociedade, como são propagados na mídia, na publicidade, no cinema, como ideais de felicidade e normalidade. Como disse aquele grande pensador, isso não é amor, é cilada, cilada, cilada.

E vira mais cilada ainda quando você é uma mulher que intimida os homens. Muitas vezes, fiquei tentando entender o que havia de errado, afinal, nos damos tão bem, o sexo é maravilhoso, nos comunicamos com olhares e nossas ideias batem. O que há de errado? Pois foi outra coisa que aprendi há pouco: não há nada de errado em ser uma mulher intimidadora. Chimamanda Ngozi Adichie, escritora e feminista nigeriana, disse: “Claro que não estou preocupada em intimidar os homens. O tipo de homem que se intimida comigo é justamente o homem em quem não tenho o mínimo interesse”. Chima, um dia quero chegar nesse grau. Por enquanto eu e milhares de mulheres ainda sofremos com isso. Pelo menos já sabemos que o problema não está em nós, nossos salários, nossos trabalhos, nossa atitude, nossas conquistas; está na noção de que temos que ser menores. Está também na construção da masculinidade que vê tudo que é “feminino” como menos, incluindo aí todas as mulheres. E por favor, não diga que “nem todo homem”. Sabemos que nem todo homem. A exceção sempre confirmou a regra.

Não quero ser menor. Não quero ser maior também. Quero ser um time. Uma parceria com paixão e tesão. Isso sim, na minha concepção, que é amor. Não aceito mais tranqueira, prefiro mesmo ficar sozinha rindo dos insultos sexistas que xingam mulheres que preferem ficar solteiras a um relacionamento ruim de “mal-amadas”. Mal-amada a gente fica quando tem um companheiro que nos bota pra baixo e tenta nos dobrar para que caibamos em seu bolso.

Não, muito obrigada.

O único bolso que me interessa é o meu, e nele eu quero o dinheiro do meu trabalho, e não subjugar alguém.

Vamos repensar nossas noções do que é amor? Já passou da hora.

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