Clara Averbuck: O Theatro São Pedro é um tesouro, e Dona Eva Sopher era a guardiã dele

Foto: Andréa Graiz
Foto: Andréa Graiz

Talvez você não saiba, mas sou filha dos caras do Tangos e Tragédias. Pelo menos foi isso que ouvi a minha infância inteira. Na verdade sou filha do Hique Gomez e da Heloiza Averbuck, mas, né? Poteito, potato, filha dos caras do Tangos e Tragédias.

E como filha dos caras do Tangos e Tragédias, passei boa parte da minha infância nos camarins do Theatro São Pedro, explorando seus corredores, descobrindo seus vãos, suas salas secretas e tortuosos caminhos que levavam a salas com pianos, antiguidades, figurinos e coisas que eu e minha melhor amiga descobríamos com o entusiasmo de aventureiras encontrando tesouros. O Theatro é, de fato, um tesouro. E a Dona Eva Sopher era a guardiã dele.

Não sei precisar a idade em que a conheci. Em 1984, ano que começou o Tangos e Tragédias, foi quando Dona Eva reinaugurou o Theatro, que tinha sido fechado após um spot de luz cair no meio de um espetáculo. Ele estava literalmente aos pedaços e ela foi a responsável por mantê-lo vivo até hoje, até os 160 anos. Cuidem do Theatro para que ele viva mais 160, por favor. Sim, porque o São Pedro é um organismo vivo, mais ainda após a criação do Multipalco, abrigando tantas peças, tantos shows, tanta arte, tanta mágica, tanta vida.

Em 1987, quando eu tinha oito anos, Dona Eva viu aquele espetáculo que era o Tangos e Tragédias e resolveu dar uma chance para aqueles rapazes tão peculiares. Ninguém imaginava o que viria. Nem o Nico (ai, que saudades) e nem o meu pai sonhavam que um dia a ideia que nasceu numa salinha e vinha se apresentando em teatrinhos poderia ocupar aquele palco. Aquele símbolo. Aquilo tudo. E lá foram eles para a primeira temporada de 30. 30 anos, 30 janeiros, 30 anos da minha vida.

Como eu disse, cresci naquele Theatro e não é exagero. Minha mãe era iluminadora, meu pai estava no palco, e eu estava lá correndo de um lado para o outro, descobrindo, atrapalhando, levando bronca, decorando o espetáculo, convidando amigos para assistir. A própria filha da Dona Eva comentou: “Ela dizia que eras muito ativa”. Ao que respondi: “Ou seja, uma peste, né?”

E eu era. Uma peste que fazia parte daquele organismo, correndo pelas escadas, conversando com todos os funcionários, minha vida, meu verão, minhas férias eram aquilo. Não tinha praia, não tinha nada disso, eu estava com meus pais em um teatro, era essa a vida, e uma vez eu, indignada e ignorantemente na minha infância que via os ideais de normalidade como algo a serem seguidos, me indignei e disse: “por que não podemos ser como TODO MUNDO? TODO MUNDO vai à praia! A gente fica no teatro!”.
Ai, Clarinha, ai. Mal sabe o que você aprendeu naquelas coxias, naqueles camarins, aos pés daquela mesa de luz, sendo a Primeira Bailarina da Cabeça de Dança da Sbornia. E depois veio minha filha, que fazia a mesma coisa! Passava as férias em Porto Alegre e infância no Theatro, quando o Tangos já era um fenômeno, cumprindo aquele papel que eu deixei depois que cresci e fui embora.

Mas partida alguma me tira a convivência com dona Eva Sopher, aquela maravilhosa, aquele ser destemido, cheio de força e vitalidade, que aos oitenta e tantos anos subia e descia as escadas de tapete vermelho feito uma garota dentro de seu habitat natural. E era, não era?

Quando o Nico Nicolaiewsky morreu, eu estava no Rio de Janeiro lançando um livro. Coincidentemente, quatro anos depois, enquanto Dona Eva dava seus últimos suspiros, passei a madrugada mostrando ao meu namorado e um amigo dele, novamente no Rio, o DVD do Tangos e várias músicas sem lembrar que era a virada do dia 6 para o dia 7.

Considero, então, que parte de mim sempre vai estar com ela, com eles, e eles comigo. Só cai quem voa, dizia o Nico, e eles agora voaram pra não mais cair. Muito, muito amor envolvido. Obrigada por tudo. A cidade, o Estado, o Brasil e além agradecem. Que Dona Eva viva para sempre, Senhora das Artes, no ar daquele Theatro que a tantos abrigou e ainda abrigará.

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