Clara Averbuck: Obrigada, Nina Simone! Você foi e ainda é a maior

Primeiro fui arrebatada pela voz, por aquele piano que ela acariciava e espancava; um acorde e já dava pra saber que era ela, que eram os dedos dela, as mãos, a alma dela. Primeiro foi a música, Blues for Mama, Backlash Blues, l Want a Little Sugar in my Bowl, eu adolescente maravilhada e depois entendendo o ativismo negro, Mississippi Goddam, Why? (The King of Love is Dead), a grandiosidade e a importância daquilo tudo.

Alguns disseram que ela ficou “muito radical”, mas como, me diga, como não ficar enquanto pessoas como você estão sendo segregadas e mortas pela cor de sua pele? Como não se compadecer diante da tristeza e da violência que aquela mulher genial passou até sua mente sucumbir de tanto sofrer racismo? É, racismo enlouquece e adoece. E foi isso que ocorreu com Nina.

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No documentário What Happened, Miss Simone, disponível na Netflix, produzido pela filha e pelo ex-marido, que também foi seu empresário e algoz, isso fica muito claro. O brilho do olho some. A vontade de viver desaparece. O olhar para a plateia que nada tinha em comum com ela não deixava mentir. Eu estava lá em 2000, no Via Funchal, e eu senti esse olhar. Ela não queria estar lá. Não adianta nada reverenciar uma cultura se você não respeita de onde ela vem e quem criou, quem fez, quem faz.

Dia 21 de fevereiro ela nasceu, e o mundo não foi mais o mesmo. Dia 21 de fevereiro, na última quarta, ela faria 85 anos. Obrigada, Nina Simone. Você foi e ainda é a maior.

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