Clara Averbuck: “Parem de tratar magreza como sinônimo de normalidade e felicidade”

Foto: Pixabay
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Olá, familiares. Venho trazer um pedido: nunca, nunca, JAMAIS, em hipótese alguma,  falem mal dos corpos das adolescentes.

Se você acha que ela está “gordinha”, “acima do peso” ou qualquer coisa assim, guarde pra você.

Se você acha que ela poderia comer menos pois, olha só, como engorda fácil, também guarde pra você.

Se você acha que se essa menina não “se cuidar e fizer um esporte vai ficar gorda”, guarde muito profundamente pra você.

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Se sua nobre intenção era “ajudar” falando coisas desse naipe, saiba que você FALHOU. Falar mal dos corpos das meninas que estão começando a crescer e se acostumar com corpo de mulher só vai fazer com que elas se sintam mal, muito mal consigo mesmas, em um mundo que já faz isso com maestria, começando pelo fato de que, apenas por crescerem, elas já recebem olhares que não recebiam antes nas ruas e não sabem o que fazer com eles. Só vai fazer com que tenham vergonha de seus corpos, com que se escondam, e sabe o que mais? Que DESENVOLVAM DISTÚRBIOS ALIMENTARES. Que busquem remédios milagrosos e perigosos. Encontrem nichos de meninas já doentes com “dicas” na internet, que existem aos borbotões.

Criticando uma adolescente, familiar, você não está ajudando; Você está atrapalhando e ajudando a criar uma mulher insegura.

Caso a sua grande preocupação seja a saúde, que é sempre a desculpa para dar pitaco no corpo alheio, aborde A SAÚDE, não o corpo ou usando o jurássico IMC para justificar sua abelhudice. Não custa repetir: magreza não é saúde. Há inúmeras pessoas magras com colesterol alto e distúrbios mil e outras, consideradas “acima do peso”, vivendo saudáveis e felizes.

Sabe o que não é saudável nessas pessoas? Saúde mental. Se a sua preocupação é saúde, pense também na saúde mental e em quantas meninas jovens enlouquecem diante de corpos manipulados, seja por imagem ou por plásticas que criam corpos inatingíveis e que elas buscam com o desespero da aprovação que jamais virá, porque nunca é o suficiente.

A intenção pode ser boa. Passei muito tempo da minha vida ouvindo que tinha um belíssimo rosto mas que meu corpo, hmmm… E isso que eu nunca fui gorda. Menos ainda na adolescência.  E mesmo assim desenvolvi distúrbios que me acompanham até hoje. Novamente: não sejam essas pessoas. Lembro que, no auge de uma depressão misturada com anorexia, a única que percebeu foi a minha avó. Todo mundo achava aquela magreza linda (49kg para 1.73), e apenas a minha avozinha viu que tinha algo errado ali. Tinha. Eu estava morta por dentro. Mas magra! Linda! Não, gente. Meus olhos sequer brilhavam.

Querem elogiar? Arrumem novos elogios. “Como você emagreceu”, como tanto tenho ouvido agora, chega a me agredir, já que eu emagreci porque tive uma gastrite galopante e fiquei dias sem comer. Agora estou bem, fazendo esportes, mas isso ainda me afeta. E se eu ainda estivesse doente? E se fosse mais sério? E se eu não quisesse falar sobre isso?

Parem com isso, por favor.

Parem de tratar magreza como sinônimo de normalidade e felicidade.
Todos os corpos merecem ser felizes e respeitados.

Então, por misericórdia, se não tiver nada de positivo para falar, não diga nada.

Shhh. O silêncio é mesmo de ouro quando o que sairia da sua boca seria ouro de tolo.

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