Clara Averbuck: “Passei a me importar menos com pelos e vi que muitas mulheres também”

Foto: Pexels
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Nunca deixo de me impressionar com os argumentos de desonestos e desavisados quando o assunto é feminismo. Estamos lutando por: salários iguais, fim da violência, direito ao nosso corpo, enfim, equidade e tratamento digno a todas as mulheres e sempre tem alguém pra falar de… pelos. Pelos corporais.

É a isso que atentam: os pelos que crescem naturalmente no corpo de mulheres e homens da espécie humana, mas que só as mulheres devem retirar, pois é uma “questão de higiene”. Frisando, apenas para mulheres, é claro. Nos homens, os pelos são perfeitamente limpos, mas os das mulheres são sujos e nojentos, e devem ser eliminados.

Pois: essa semana aquele pré-candidato delirante à presidência da República, que é abertamente misógino e homofóbico, disse não se importar com um movimento de mulheres com braços cabeludos, risos. Risos tristes, mas risos. Que forma patética de tentar desqualificar uma mulher, mas né, vindo de quem vem, surpresa alguma.

Sabe, eu sempre fui a louca da depilação. Eu sou mesmo uma mulher de braço cabeludo, tem uma franja que cobre minha pele. Eu tiro, tiro tudo, arranco, raspo, clareio, sumo com eles. Posso dizer que é porque quero, e é. Ninguém coloca uma arma na minha cabeça e me manda ligar a maquininha. Mas esse meu querer, diferente dos pelos, não nasceu comigo: é parte de uma construção que me ensinou o que é belo.

Na semana passada, peguei algumas Playboys antigas e sabe o que as mulheres tinham? Pelos. Muitos. Uma vastidão de pelos pubianos numa revista criada exclusivamente para agradar homens. Isso não tem nem 20 anos, essas xavascas cabeludas e altamente cobiçadas. Mas hoje, ah, hoje não pode.

Desde que comecei a fazer pole dance e passei a ficar seminua me alongando e subindo numa barra várias vezes por semana, passei a prestar mais atenção nesse processo de crescimento dos pelos. Porque, mesmo que você seja a louca da depilação, surpresa: eles nunca param de crescer. Nem depois que a gente morre. Você tira, eles voltam. Você raspa, eles vem rapidinho espetando. Você arranca, eles voltam – e todos eles podem encravar e causar dor e sofrimento. A não ser que você possa e esteja disposta a gastar uma pequena fortuna em métodos mais definitivos, eles sempre vão estar lá.

Passei a me importar menos com eles e vi que muitas mulheres do estúdio também. Vivemos seminuas e os pelos existem e é isso aí. Pronto.

Por que, então, incomodam tanto, e por que, ó céus, servem de argumento para que tentem desqualificar uma luta genuína de mulheres que têm muito mais para se importar do que seus pessoais e intransferíveis pelos?

Uma mulher que não segue as regras existentes (e que estão sempre mudando, diga-se de passagem) é muito perigosa mesmo. Se ela não faz questão de estar dentro do padrão de beleza e de comportamento, o maior cabresto da sociedade, ela não está sob controle.

Imagina, hoje acha que é ok não se depilar e ser ahn, natural, amanhã acha que pode peitar um chefe, ou pior, subir de cargo e passar o chefe, depois vai querer o quê? Viver sem homem? Viver sem pedir por favorzinho e com licencinha pra existir? Daqui a pouco vão achar até que podem ser presidentas da República.

Imagina, pode ser até que uma dessas loucas que defende que cada uma pode fazer o que quiser com o corpo acabe sendo colunista de jornal, influenciando outras a repensar seus padrões e seus porquês.

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