Clara Averbuck: “Quantas olhadas para trás por minuto damos ao caminhar na rua?”

Foto: Pexels
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Reproduzo, aqui, a carta de um leitor confuso que, sem querer, me deu um novo vulgo, um belo apelido:
“Tenho acompanhado, na Revista Donna, a coluna de Clara Averbuck que, aliás, escreve muito bem. Mas noto nela uma clara aversão à figura masculina, motivo pelo qual, ao meu ver, se esconde sob a figura de feminista convicta e assim exacerba suas interpretações sobre assédio masculino. Alerto que é desagradável essa posição tão radical aos olhos de leitores mais atentos”.

Bom, meu senhor. A colunista atenta gostaria de dizer que desagradável mesmo é viver sendo assediada na rua e que notou uma clara aversão a repensar a masculinidade como lhe foi ensinada. Eu não tenho aversão alguma a homens, inclusive tenho amigos que são e um namorado maravilhoso que já conseguiu entender que o problema é estrutural, e não pessoal, quando se trata de machismo e especialmente de assédio. Não se trata do indivíduo, não se personaliza essa questão. Estamos falando de uma estrutura que oprime as mulheres e que normaliza esse comportamento a ponto de qualquer coisa que difira desse senso comum seja “radical”. O senhor, como homem, jamais vai entender o que é ter que repensar 10 vezes o caminho, o vestido, a sua vida, os seus horários, para evitar de ser assediada e quiçá violada.

Assédio não é sobre desejo. É sobre poder. Quantas ruas atravessadas, quantos frios na barriga quando sentimos um carro diminuindo a velocidade enquanto você está sozinha na rua, quantas olhadas para trás por minuto damos ao caminhar pela rua? Se o senhor passou por isso, certamente foi por medo de que roubassem suas posses, não de que violassem seu corpo. Nossos corpos não são coisas nem são públicos, nossos corpos são nossas pessoas que merecem nada menos do que respeito.

Feminismo incomoda mesmo porque faz repensar o status quo, esse ao qual o senhor e tantos outros estão acostumados, de que o homem tem direito a fazer o que quiser, abordar da forma que quiser e a mulher deve se conformar e se calar ou estará sendo exagerada, histérica, ou até uma louca que acusa um pobre homem inocente. Que bom sentir que esse incômodo existe, que triste perceber que algumas pessoas não conseguem enxergar além de suas vivências.

Como já disse anteriormente, o mundo não é sobre nós; não podemos universalizar as experiências, e, em toda a história, a perspectiva única é a do homem branco absoluto. É a perspectiva dos livros de história, da colonização e de tudo que veio depois disso. Então, já chega, não é mesmo? Se o feminismo incomoda por querer mostrar a narrativa de outros lados, eu fico é feliz, pois é isso mesmo que queremos: questionar, ressignificar, desconstruir e reconstruir sob outros olhares que não sejam do homem branco.

Clara Aversão deixa um recado: preste atenção nas estruturas, não se ofenda e repense essa frágil masculinidade que não aguenta saber que existem mulheres que não estão interessadas em sua opinião sobre seus corpos – ou sobre seus textos, que claramente estão sendo interpretados de forma equivocada, pois quando se fala de repensar masculinidade tóxica e violenta, isso também vai aliviar os homens das gerações seguintes, e, quem sabe, até alguns destas que ainda estão por aqui e que estejam, de fato, atentos.

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