Clara Averbuck sobre o clipe de Anitta: “Quem vende empoderamento não pode empregar abusador”

Foto: Divulgação
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Nunca três furim de celulite causaram tanto furor no mundo pop brasileiro. Na segunda, foi liberada em todas as plataformas a nova música e o clipe de Anitta, Vai Malandra. O clipe começa com um close na bunda da cantora. Enquanto algumas mulheres, tão acostumadas com corpos absolutamente perfeitos, vibravam, outras chiavam e diziam que aquilo ali não era nada, vai ser gorda mesmo pra ver. Concordo com todas. Eu nem sei se a bunda é mesmo dela, mas isso não me importa.

O clipe traz a tão esperada “volta às origens” de Anitta, a periferia do Rio. Depois de clipes glamurosos, em inglês, em espanhol, gravados mundo afora e com grandes nomes da música, ela finaliza seu projeto Check Mate, com foco nas já citadas parcerias internacionais, na Favela do Vidigal.

Em primeiro lugar, temos que ter noção de que estamos falando de mercado. De vender. De estourar. Tendo essa noção, é sempre importante frisar que Anitta é uma artista e empresária ambiciosa que sabe muito bem o que quer. Ela veio da periferia, lutou para conquistar seu lugar, foi, sim, muito malandra, fez as parcerias certas e tem talento, sim, inclusive muito mais do que artistas homens que chegam no topo fazendo um quinto do que ela fez.

Vamos começar pela mais espinhosa das questões: por que Terry Richardson, fotógrafo renomado porém conhecido, desde 2014, por abusar e coagir várias modelos, foi escolhido para dirigir o clipe? Por que, Anitta, por que, produção, por que, parceiragem? Um abusador? A essa altura? Neste ano em que tantos foram desmascarados, um cuja máscara já tinha caído há tempos? Nesse ponto de sua carreira ascendente, QUALQUER um poderia ter sido escolhido, mas não: escolheram Terry. Eu sei que um clipe não se faz sozinho, que existe toda uma equipe envolvida e não quero desmerecer o trabalho de ninguém, mas que bola fora. Que grande bola fora. Porque muita gente vai acabar enxergando o clipe apenas como uma visão romantizada da favela, e é, de certa forma (não vi polícia, não vi milícia, não vi bala perdida ou caveirão ou barulho de tiro, não é isso que o gringo quer, não é isso que o gringo gosta).

Mas, como tudo nesta vida, as coisas têm suas nuances. Anitta, possivelmente a mulher mais poderosa do mundo pop do Brasil hoje, escolheu fazer o clipe no Vidigal, com as pessoas da comunidade presentes, trazendo a maravilhosa cultura do biquíni de fita isolante na laje pra explicitar bem a marquinha. Acho maravilhoso que ela use o corpo dela pra fazer o que quiser e acho também, como disse Victoria Damasceno em um artigo publicado em uma revista, que há uma certa subversão em mostrar o corpo dos homens ali, disponíveis, cobertos de óleo e seminus. Isso jamais vai se comparar à objetificação do corpo da mulher, é claro, mas há essa sutileza.

Por falar em objetificação, muitas mulheres negras se incomodaram com a imagem da “mulata exportação” vendida pelo clipe. Sim, vendida, pois esses corpos sempre são vistos como mercadoria, desde sempre. Não vou entrar na questão de Anitta ser preta ou branca, de procedimentos estéticos, pois disso já falei na semana passada, mas entendo completamente o desconforto dessas mulheres. Eu, enquanto branca, busco libertação do meu corpo e minha sexualidade inclusive como uma manifestação política, em uma época que querem controlar e regular nossos corpos. Para mulheres negras é diferente: elas lutam para que não sejam tratadas como objetos e meras bundas. Por isso não tem como falar “da mulher”. Somos muitas, somos diferentes, temos diferentes corpos, anatomias, cores e vivências, não cabemos em um balaio só.

Mas uma coisa é certa: Anitta sabe muito bem o que está fazendo. Ela tem 24 anos, uma fortuna que eu não saberia nem como abraçar e está ganhando o mundo com, deitem, vários tipos de música, inclusive o funk, essa cultura tão marginalizada e demonizada por uma elite que não consegue engolir que existem outras realidades e elas agora estão bem na sua cara.

Anitta ainda tem muito o que aprender em termos de discurso, mas aí eu penso: será que ela quer? E, sinceramente, se for pra alguém lucrar com empoderamento feminino, que virou um produto há algum tempo, que seja uma mulher periférica, duas, três mil mulheres. Vivemos neste sistema e é assim que ele funciona.

Li muitas críticas e achei quase todas válidas – ignorei as moralistas pois acredito, como diz o lema do Maravilhosas Corpo de Baile, em combater o patriarcado com rebolado, e, se possível, sentar nele. Pode gostar da música, pode odiar a música, pode fazer textão contra a Anitta, a bunda da Anitta, a vida da Anitta. Ela vai sorrir, acenar e seguir enriquecendo.

Só não chama mais abusador escancarado, miga. Não é só horrível, também pode prejudicar sua carreira. Quem vende empoderamento não pode empregar abusador.

Concordando ou não com tudo isso: pode, sim, brincar com o bumbum e rebolar a raba. Está liberado!

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