Clara Averbuck: “Ter reproduzido machismo me faz entender as mulheres que ainda fazem isso”

Foto: Pexels
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Não é segredo: já fiz muita besteira.
E quem não fez?

Desconfio de quem acha que não foi babaca um dia; imagino, então, que deva continuar sendo.
Pois fiz muita merda e, às vezes, me bate uma vergonha.

Releio meus livros e sei exatamente o que pensava naquela época, quando saí do conforto de Porto Alegre pra tentar a vida em São Paulo e dessa vida espremi a matéria-prima das histórias.

Releio e penso: que mimada, que machista, que gordofóbica, que vergonha. Porque esses livros seguem aí, né? As pessoas compram, leem. O texto segue intocado, afinal, se ficar mexendo em texto velho remendando quem eu era, nunca mais faço nada. E vejo ali os ecos de uma senhorita que se considerava muito especial, que via defeito em tudo e em todos e vivia oscilando entre o deslumbre consigo mesma por ser “diferente” e uma autoestima abaixo do ânus do cão.

Tenho duas opções:
1. Me lamentar por isso eternamente ( )
2. Ser grata pela vida ter me ensinado a ser diferente (x)

Ainda bem que fiz besteira. Se não tivesse feito, era capaz de ainda estar fazendo. Ter reproduzido machismo me faz entender as mulheres que ainda fazem isso e ajudar a desenviesar o pensamento delas.
Ter sido uma garota privilegiada que sequer se dava conta disso me faz agora conseguir conversar com as que não conseguem perceber seu privilégio.

Eu podia ter continuado pra sempre naquilo sem olhar em volta, achando tudo ruim e inventando sofrimento na minha vidinha. Que sorte a minha ter encontrado as pessoas certas que me fizeram enxergar e aprender que dava pra ser melhor. Ainda estou aprendendo. Espero nunca parar.

Todo mundo faz besteira. Todo mundo pode melhorar. A vergonha do passado é inevitável, especialmente porque o mundo é cheio de gente que gosta de subir no palanquinho moral e apontar dedos, mas faz parte. Inclusive já gostaria de colocar que sentir vergonha alheia diante dessas pessoas é uma perda de tempo. É também, de certa forma, subir em outro palanquinho, e não precisamos de mais narizes empinados neste mundo.

Se a gente se envergonha é porque se deu conta do ridículo. Sigamos melhorando, então, pois o erro faz parte do acerto e os fracassos e os aprendizados são os ladrilhos da longa estrada da sabedoria.

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