Clara Averbuck: Uma flor que remete a uma vagina ofende toda a sociedade

Foto: Panmela Castro, divulgação
Foto: Panmela Castro, divulgação

No fim de semana passado, tive a honra de ser madrinha de uma obra da artista e grafiteira Panmela Castro, que também é minha amigona. Nos conhecemos na gravação de um programa há três anos, temos muito em comum, e eu a admiro demais. A obra, intitulada Femme Maison, faz parte de sua série Ridículo Feminino e é uma casinha de bonecas em tamanho gigante com tudo tudo eu disse tudo rosa, um rosa choque quase violento, construída por sua mãe, Elisabeth da Silva, com colaboração de sua irmã, Artha Baptista. Nomes, sim. Mulheres precisam de nome e sobrenome. Tudo rosa, tudinho, o que no começo causava um certo encanto nos visitantes e logo depois transformava-se em um certo mal-estar. Mas a Panmela me disse que arte não é pra ser explicada porque eu, escritora maníaca, já queria derramar conceitos sobre as pessoas. Shh, Clara, cada um com suas experiências. Fizemos também uma performance em um vestido siamês, no qual precisávamos da ajuda uma da outra para as atividades mais simples, já que contávamos apenas com um braço.

Panmela também pintou um belíssimo mural em um prédio tombado em Sorocaba. É o rosto de duas mulheres que se encontra em uma fresta para um universo, e esta fresta pode ser vista como uma flor, um frufru, ou… uma vagina. Eis que um vereador pastor viu a vagina e ficou es-tar-re-ci-do. Horrorizado. Tão aviltado que abriu uma sessão extraordinária na Câmara dos Vereadores de Sorocaba para debater a pintura. Ele bradava: “É uma genitália feminina em tamanho gigante! Gigante!”.

Eu ri. Aí fiquei furiosa. Aí ri de novo, porque não é possível, e aí fiquei mais brava ainda porque não é possível.

Primeiro que eu não acredito que genitália defina gênero, mas nem entraria neste tipo de embate com um homem que é capaz de se ofender quando enxerga uma vagina em uma pintura. O que tem de mais, meu senhor? O mundo é fálico. Imagina se cada vez que alguém enxergasse uma piroca abrisse uma sessão extraordinária pra debater? Mas é claro que isso jamais aconteceria, não é mesmo? Afinal, o que ofende é a vagina. Este buraco misterioso e tão despudorado que foi de lá que todos, todinhos nós, viemos. 2017, sabe? E ainda é tabu falar desta parte do corpo. Queria ver a reação deste homem diante da pintura A Origem do Mundo, de Gustave Courbet. Será que ele ia tentar mandar fechar o Museu D’Orsay, em Paris? Ou quando é pintado por um homem não tem problema? Afinal, não dá nem pra contar a infinidade de corpos femininos nus pintados por artistas homens. Mas, nossa, uma flor que remete a uma vagina ofende toda a sociedade.

A gente ri, mas é triste. É triste a ignorância, é triste a misoginia que este tipo e tantos outros carregam com eles, mas, no fim das contas, o bafafá que ele criou ajudou a chamar mais atenção para o maravilhoso trabalho da Panmela, que já grafitou mais de 30 cidades mundo afora e jamais tinha deparado com um ridículo desses. É horrível mas também é revelador ver a ojeriza que esses homens têm a tudo que consideram feminino. Azar o deles. Que tenham pesadelos com vaginas dentadas gigantes, que tenham pesadelo com a destruição das normas de gênero e que o pesadelo deles um dia se torne verdade.

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