Clara Averbuck: Você pode acabar no meu livro

Foto: Pexels, Divulgação
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Uma vez, a primeira vez em que eu me apaixonei, e ele também se apaixonou, foi uma coisa louca, deu tudo errado, e ele me disse, no canto de uma festa, que não podia ficar comigo porque precisava duma mulherzinha. Eu tinha 22 anos e nenhum projeto de ser mulherzinha de ninguém. Tinha projeto de dominação, eu e ele juntos ganhando o mundo, companheiros e cúmplices, falando o que ninguém tinha coragem, trocando juras de amor sem prazo de validade, morando numa casa com varanda e uma cadeira de balanço do lado de fora, bebendo vindo e brindando pencas de textos circulando o mundo e mais um monte de planos.

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Mas ele não podia, ele precisava de uma mulherzinha. Aquilo me doeu tanto, mas tanto, que eu simplesmente virei minhas costas e saí andando. Eu nunca ia ser uma mulherzinha. Não nasci pra isso, não fui criada pra isso, não caibo nisso. Fui embora chorando. Ainda bem que eu fui embora. Ainda bem que ele me avisou que precisava de uma mulherzinha. Uma mulherzinha que aceitasse e que jamais peitasse. Uma mulherzinha que não incomodasse, não aparecesse, não chamasse a atenção, que soubesse as flutuações de preço do supermercado, que calasse. Não era eu. Não sou eu. Nunca fui eu.
Hoje, eu penso: que momento importante foi esse de eu ter ido embora. Eu poderia ter ficado. Poderia ter acreditado em contos de amor romântico e final feliz e decidido tentar ser o que ele queria, o que quer que isso fosse. Na época, eu ainda rivalizava com outras mulheres e pensava: azar o dele. Sigo pensando que azar o dele, mas isso não tem nada a ver com as outras mulheres, e hoje somos grandes amigos, ele me traz livros de presente de Portugal, eu assino a orelha do livro dele, nos conhecemos como poucos e tudo bem. Ainda bem. Ia ter sido um atraso na minha vida. Amigo é melhor. É isso. Não me arrependo de nada. Está tudo bem.

Depois aconteceu, de um outro jeito. Num deslize, não sei bem como, virei mulherzinha de alguém. Quase um objeto. Me anulei, parei de escrever, fiquei tão pequena que cabia num dedal. Demorei anos pra me recuperar. Fiquei com medo de deixar qualquer pessoa chegar perto de mim, de deixar qualquer pessoa entrar, virei uma fortaleza de pedra e aprendi a viver sozinha e sem choramingar. Isso nunca mais vai acontecer, eu dizia. Eu não vou ser, não sou, não quero ser coadjuvante da vida de ninguém, ninguém vai guardar o furacão no bolso. Porque a avassaladora maioria dos homens não manja de companheirismo. Não entende isso de espaço, disputam poder e holofote. Eles querem delimitar nossa existência, mesmo que de forma subjetiva, sutil, aquela manipulaçãozinha básica, aquele atrapalho inconsciente, aquele desejo intrínseco de que você, na verdade, não faça nem seja nada. Eu sei, eu sei que homens são criados para ser assim, que é uma construção, mas desconstruam isso aí, lindos, porque já não nos cabe mais. Se virem.

Hoje, eu não quero mais ser fortaleza. Dá um trabalho do cão, e eu entendi que não preciso ser assim pra ser forte e também que não preciso ser forte o tempo inteiro. Mas eu nunca vou ser a bela, recatada e do lar, apesar de curtir bem ser bela em um lar sem recato. Eu vim pra bagunçar e dar uma incomodada. Eu vim pra peitar os amigos e quebrar o mal-estar com uma piadinha. Eu vim pra questionar os conceitos, pra encher o saco mesmo e também não aceito migalha nem palhaço querendo mandar na minha vida. O último que tentou isso virou personagem dos mais ridículos. Tenho um quadro na minha sala que diz: cuidado, ou você vai acabar no meu livro. Cuidado. Mas pode ser legal, né? Ou não.

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