Claudia Tajes: 24 horas sem luz na cidade que brilhou

Ideia para deixar a cidade bonita: arte (Foto: João Marcelo Osório/Divulgação)
Ideia para deixar a cidade bonita: arte (Foto: João Marcelo Osório/Divulgação)

Rio de Janeiro, 21 de agosto. Primeiro caiu uma chuva daquelas que Porto Alegre viu muitas vezes nesse inverno, como se uma gigantesca panela de água estivesse sendo despejada na cabeça dos viventes. Cada pingo do tamanho de um dedo polegar, e gelado, pura dor batendo na pele. Então a luz piscou, um transformador na rua passou vários segundos em curto, a luz piscou outra vez, apagou, voltou, apagou. E nunca mais. Eram 18h de domingo. Vinte e quatro horas depois, nada de luz aqui no bairro.

Leia mais colunas da Claudia Tajes:
:: Os grupos de WhatsApp
:: Sutileza à flor da pele

Pelo menos foi no último dia da Olimpíada. Aliás, a Olimpíada acabou mesmo? É que, com a falta de energia, não deu para ver o encerramento. Sem TV, sem internet, sem guarda-chuva para sair de casa (voou feito um rouxinol xadrez no primeiro vento da tempestade de ontem), sem 4G no telefone e sem nada na geladeira a não ser água quente – o que resiste a 24 horas de apagão? –, escrevo esta coluna diretamente da Idade da Pedra. Só acredito que os Jogos terminaram porque os alemães que alugavam o apartamento ao lado não estão batendo nos seus tambores desde às sete da manhã, como nos dias que antecederam essa segunda-feira cinzenta e chuvosa, aqui feriado por decreto do prefeito.

E assim se cria um novo cartão-postal (Foto: João Marcelo Osório/Divulgação)

E assim se cria um novo cartão-postal (Foto: João Marcelo Osório/Divulgação)

Tinha-se a ideia de que a saída de milhares de turistas rumo ao aeroporto pudesse congestionar as ruas, por isso o feriado. Que nada. Pela janela, e isso que a avenida é movimentada, vejo um carro muito de vez em quando, mais raramente ainda um ônibus. A maior parte das lojas está aberta, atendentes preparados para ninguém com evidente tristeza. O Rio vive a sua ressaca e a Light, a companhia de energia elétrica, essa matou o trabalho mesmo.

A previsão era de que a energia voltaria às 4h03min. Depois às 11h26min. Então às 15h47min. Agora é às 18h05min. Não entendo por que horários tão quebrados, deve ser por criatividade de quem passa a informação. Uma certeza, pelo menos, dá para ter: tão cedo, necas de luz por aqui. Há pouco desafiei a chuva em busca de uma esperança, um caminhão da Light – ou um carrinho, que fosse – botando os postes no lugar. Nada. Eu moro sozinha, posso me virar. Mas e as casas com crianças, com velhinhos, com doentes?

Concentração antes do jogo do Brasil (Foto: João Marcelo Osório/Divulgação)

Concentração antes do jogo do Brasil (Foto: João Marcelo Osório/Divulgação)

Pelo menos foi na finaleira, conjunção de forças da natureza com esgotamento da capacidade de bem servir. No sábado, pouco antes do jogo do Brasil, o Boulevard Olímpico do novo porto estava uma beleza, milhares de pessoas alegres com a festa na cidade. Isso é muito bom aqui, nesse lugar tão bonito que surpreende cada vez que a gente olha: a capacidade para viver a rua. Claro que o cais aberto a todos facilita, mas essa é outra grande e dolorida discussão. Só vivendo em Porto Alegre para entender.

O porto é de todos. Estamos falando do Rio de Janeiro (Foto: João Marcelo Osório/Divulgação)

O porto é de todos. Estamos falando do Rio de Janeiro (Foto: João Marcelo Osório/Divulgação)

Contando os minutos para as 18h05min, com 7% de bateria no computador, fico por aqui. Se a energia voltar, na semana que vem eu também volto. Só lembrando do melhor comentário de algum gaiato a respeito da faixa “100% Jesus” que, do nada, surgiu na cabeça do estranhamente revoltado Neymar Jr.: 100% não, tem que descontar o imposto.

Acesse todas as colunas de Claudia Tajes para o Donna

Leia mais
Vídeos recomendados
Comente

Hot no Donna