Claudia Tajes: “A campanha eleitoral mal começou e o Papai Noel já está na rua”

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Há quem não dê a mínima ou, em casos extremos, até se orgulhe de jamais comprar um presente. “Eu não tenho espírito comercial”, dizia um amigo que nunca levou sequer um anel de sorvete quente para a namorada. Não sei se o sorvete quente ainda existe nos pequenos armazéns da vida, mas era o que de mais barato se podia comprar – e ainda vinha com um anel de plástico de brinde.

Nem nas datas mais clássicas, aniversário e Natal, sequer nessas o meu amigo se dignava a aparecer com uma caixa de bombons ou um vale CD, os dois presentes mais impessoais que existem. Também nunca comemorou o Dia das Mães com uma rosa daquelas que custam R$ 3 nas esquinas – R$ 5 se o cliente embrulhar em papel de seda. A justificativa? “O Dia das Mães é todos os dias”. Sei.

Já eu sou dos que curtem pensar no presente do outro. É tão bom quando se acerta, quase tão bom quanto ganhar algo. O pior argumento de vendas, na minha opinião, é aquele usado pelos atendentes ansiosos por empurrar qualquer coisa para o cliente em dúvida: se o presenteado não gostar, pode trocar. “Leva essa sunga amarelo-bebê. Se o teu tataravô preferir, troca por uma pantufa verde-água”. “Teu sogro vai adorar uma gravata de mulher pelada. Qualquer coisa, ele troca por uma caneca de mulher pelada”. “As coleiras com mensagens são um must. Essa aqui, VADIA, é perfeita para uma avó moderninha. Se ela quiser trocar, é só não arrancar a etiqueta, trazer a notinha e vir entre duas e três da tarde nas terças e quintas”. Qual a graça de se comprar um presente que com certeza será trocado, e ainda com uma trabalheira para o coitado que ganhou?

Presente não é obrigação, é delicadeza. Por isso mesmo, pede um mínimo de dedicação – o que não significa gastar os tubos. Fazer um bolo, um doce, um almoço: tudo é presente. Procurando direitinho, até em loja de bugigangas dá para encontrar opções boas. Quem nunca tirou a etiqueta do magazine para valorizar o presente baratinho?

Um presente não é uma chatice da qual urge se livrar, é antes uma manifestação de afeto. Não que o afeto precise de presentes, como pensava o meu amigo do primeiro parágrafo e mais tanta gente que não dá a mínima para eles. Já vi isso bem de perto. Não esqueço de alguns presentes que ganhei de pessoas pouco esforçadas. Em um aniversário no primário, uma caneca de chope. Eu devia ter uns oito anos. Em um amigo-secreto, e não faz muito tempo, um charuto. E os reaproveitamentos? Seria um Cheetos Gorgonzola junto com uma meia de lã envolta em um enorme laço de fita? Nada, a meia é que era usada mesmo, guardada suja de um inverno para o outro – sepá, de uma era glacial para outra.

Clássicos também são os repasses de presentes de casamento. Aquele vaso de cristal chinês que não fica bem com estilo de decoração algum vai trocar de dono na primeira ocasião. Só cuidado para não voltar para quem deu. O quadro pintado com carinho e pouco talento pelo tio aposentado, as capinhas de crochê combinadas para liquidificador e botijão de gás, um capacho com estampa do Romero Brito. Tem vezes em que, mesmo com as boas intenções de quem dá, o presente está destinado ao fracasso. É do jogo.

Eu, que gosto do esporte, aprendi alguns truques para não ser malsucedida nos presentes. Não compro roupa para um filho de 25 anos porque o gosto nunca bate. Não compro roupas de tamanho GGG para ninguém – esse é o único caso em que é melhor o presenteado trocar. Não tento mais impingir meus autores preferidos para quem não se interessa por eles – dói muito quando quem ganhou diz que detestou o livro. Presto atenção no que as pessoas curtem. Só dou o que eu gosto, o que não garante o sucesso, mas pelo menos conduz a um erro sincero.

Este papo de presente parece meio deslocado do atual momento político e social, mas tem a sua razão. Passados poucos dias da metade de agosto, vi o primeiro Papai Noel de 2018 na rua. Em Copacabana, na frente de uma loja, com um microfone na mão, alternando ho-ho-hos com frases encorajadoras para antecipar as compras de final de ano.

A campanha eleitoral mal começou, ninguém sabe o que vai acontecer no país, e o Papai Noel já está na rua, vestido de cetim vermelho, com o sol na cabeça, vendendo o Natal. Nessas horas, dou razão para o meu amigo que alegava não ter espírito comercial e me vejo fazendo um retiro em algum monastério. Mas, só para garantir, caso os monges resolvam fazer um amigo-secreto, vou levar o meu charuto. Nunca se sabe quando se vai precisar de um presente de última hora.

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