Claudia Tajes: A mãe absolvida

(Reprodução)
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Mesmo nós, os que nada sabemos, sabemos: Sigmund Freud identificou na relação com a mãe todos os problemas que a gente leva pela vida. Um psicanalista inglês que se dedicou a “traduzir” as ideias do homem para uma linguagem mais fácil de ser compreendida pelos leigos, o inglês Adam Phillips, resumiu o drama em duas frases. “Ser igual à mãe, a tragédia das mulheres. Não ser, a tragédia dos homens.”

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Não sei se quem manja do assunto vai concordar, mas que definição perfeita. Essa relação meio às turras que as filhas e as mães têm – no mais das vezes – só pode ser por causa desse espelho. Se eu vejo em mim coisas que não gosto nela, bom, o jeito é negar tudo. Começando por ela. Claro que a coisa é muito mais complexa do que isso e que me falta competência para falar do tema. Eu tenho só a prática. Quer dizer, tinha. Muito pior que viver às turras com a mãe é quando a gente se vê vivendo sem ela.

Hoje aqui, do outro lado do balcão, sendo só mãe e não mais filha, acho que o Freud foi injusto com a gente. Aposto que só porque a mãe dele o chamava de “Mein Goldener Sigi”, Meu Sig de Ouro. Filhos costumam detestar essas demonstrações derramadas de amor materno. Nem tudo é culpa nossa. A proteção exagerada que pode criar adultos despreparados, OK. A mania de fazer o possível e o impossível pela prole, e que pode criar adultos imprestáveis, OK. As cobranças exageradas que podem criar adultos inseguros, OK. As chantagens sentimentais que podem criar adultos frágeis, OK. Mas já ouvi uma amiga dizer: sou gordinha porque a minha mãe cozinhava bem. Aí também não, né? Fora que a mãe do Eduardo Cunha não deveria sofrer as penas pelo crápula em que o filho se tornou. A não ser que tenha criado o menino junto com as ratazanas da casa.

Freud sobre a mãe: "Eu não tinha liberdade de morrer enquanto ela vivesse" (Reprodução)

Freud sobre a mãe: “Eu não tinha liberdade de morrer enquanto ela vivesse” (Reprodução)

Não considero minha mãe culpada pelas minhas tantas imperfeições, contradições e chateações, ou teria que culpar antes a minha avó. E a minha bisavó. E a minha tataravó. Acabaria chegando em Lilith, a talvez primeira mulher, aquela que veio antes de Eva – deixemos de lado a ciência pelas possibilidades da lenda. Não, seria uma reconstituição muito trabalhosa. Melhor tentar consertar as coisas daqui para a frente em lugar de transferir a responsabilidade para as antepassadas.

E as minhas culpas como mãe, quais seriam? Muitas, provavelmente. Devo estar errando em tudo, torrando a paciência do filho com cuidados supérfluos, sufocando o coitado desde o nascimento. Mas com o atenuante que o próprio Freud, lá pelas tantas, apresenta em seu livro A Interpretação dos Sonhos: “As pessoas que são preferidas por sua mãe adquirem na vida uma confiança particular nelas mesmas e um otimismo invencível”. É isso. Trata-se de preferir todos os filhos. E estaremos absolvidas.

Só me ocorre uma dúvida: se Freud fosse mulher, a culpa seria do pai?

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