Claudia Tajes: A Porto Alegre que foi minha

Foto: João Marcelo Osório, divulgação
Foto: João Marcelo Osório, divulgação

No sábado de manhã meu pai nos levava para comer sorvete na Banca 40 do Mercado Público, sempre a taça de creme, morango e chocolate. A Banana Split, muito ambicionada, era grande demais para as nossas barrigas infantis. A Taça Melba, adulta demais com toda aquela nata ostentação.

Depois, o pai ia trabalhar no Correio do Povo e, às vezes, nos levava para passar a tarde com ele, nós batucando nas teclas de alguma máquina de escrever desocupada da redação. Nesse tempo, a Borregaard, fábrica norueguesa de celulose que se instalou em Guaíba sem qualquer preocupação ambiental, mandava para a margem de cá um cheiro de enxofre que apodrecia o ar. Foi quando José Lutzenberger e a Agapan denunciaram: a Borregaard estava contaminando o rio (chamar de estuário tira toda a gravidade) com seus resíduos. A sociedade se movimentou e depois de algum fecha-reabre, a fábrica foi vendida. Só sei que, sempre que a Borregaard empesteava a cidade com um sopro fétido que parecia vir da casa do tinhoso, meu pai escrevia editoriais que o Correio do Povo publicava na primeira página. De “gases nauseabundos” a “dejetos pútridos”, os textos eram pura diversão para quem gostava das palavras. Muitos deles escritos aos sábados, os melhores sábados do mundo, na redação quase deserta do jornal. Em uma mesa próxima, indiferente aos risos que a expressão “flatos catinguentos” provocava na gente, Mario Quintana escrevia o Caderno H.

Outras colunas da Claudia
:: Sugestões à la carte
:: A vida com mulheres

Torcia para chegar o domingo e almoçar na churrascaria Boi na Brasa, na esquina da Ramiro com a Rua São Carlos. Para alguns, a atração do lugar era a carne. Para mim, era um boi empalhado, em tamanho natural, que ficava rodando em um display. Não está muito bem descrito, mas era bem assim. Se calhasse, depois do almoço a gente ia até Ipanema. O pai estacionava o carro para a gente ver o rio (chamar de estuário tira toda a poesia). Duas coisas surpreendentes nessa recordação: o carro do lado não transbordava uma música horrenda em volume altíssimo e, os mais jovens dirão que é mentira, jamais fomos assaltados.

 

Foto: Katia Suman/divulgação

Foto: Katia Suman/divulgação 

Sorte que a lindeza do céu não depende de investimentos

Durante a semana, quase tudo era feito no Centro. Dentistas e médicos ficavam lá. Tinha uma banca de jornal imensa na Praça da Alfândega. Boas lojas, a Livraria do Globo, a Galeria Chaves e seus discos, tudo isso na Rua da Praia. O Centro era então caminho e programa. Corta para 2016. Encontro um amigo no supermercado. Ele conta das tentativas para mostrar os pontos turísticos do Centro a uma hóspede estrangeira. Encontrou a Ponte de Pedra e o Lago Açorianos atirados e sem condições de receber visitas. Na ocasião, o Margs e a Casa de Cultura estavam fechados – já voltaram a funcionar. Por outro lado, o Theatro São Pedro agora só abre em dias de espetáculo, duas horas antes das apresentações. O Memorial segue fechado há mais de um ano.

Morando no Rio, hoje eu morro de saudade de Porto Alegre. Só não sei se dessa que eu perdi agora. Ou daquela que eu tive um dia.

Foto: Theo Tajes/divulgação

Foto: Theo Tajes/divulgação 

Porto Alegre e seus presentes para os nossos olhos

Entre as coisas que um porto-alegrense pode fazer para dar um presente de aniversário à cidade, uma delas é entrar para a Associação dos Amigos do Theatro São Pedro e contribuir com bem pouquinho a cada mês para ajudar a manter o teatro sempre vivo. Informações pelo fone 51 3327-5100.

:: Leia outras colunas de Cláudia Tajes

 

Leia mais
Vídeos recomendados
Comente

Hot no Donna