Claudia Tajes: “A vida continua aos 60”

Madonna, que fez 60: é disso que se trata. Foto: AFP
Madonna, que fez 60: é disso que se trata. Foto: AFP

Os 60 são os novos o quê, mesmo? 40, 50? Se forem, o pessoal de vendas anda meio defasado. Quem me disse isso foi um jovem adulto na sua mais radical plenitude, 25 anos de vida explodindo, diante do outdoor com a foto de um risonho casal de cabelos brancos sob o título “o lugar para você viver feliz depois dos 60”.

O “lugar para você viver feliz depois dos 60” não era uma clínica geriátrica, como de início eu supus. Vale observar que, para a Organização Mundial de Saúde, a pessoa de 60 anos é idosa. Vai dormir na véspera do aniversário com 59 anos, cheia de vitalidade, e acorda idosa. É assim que funciona.

Mas voltando ao outdoor. O tal lugar era um prédio com, por exemplo, “espaço de convivência” – bancos no jardim para se tomar a fresca, como todo morador de prédio faz desde tempos imemoriais. Não fui atrás dos detalhes, não sei o que mais o lugar para ser feliz depois dos 60 oferecia. Os vizinhos não ouvem música a todo volume? O pessoal de vendas talvez ignore, mas quem tem 60 hoje viveu o rock como se não houvesse amanhã. Se até para o Keith Richards houve, imagine para eles.

A foto do casal de cabelos brancos, rostos unidos e olhares perdidos em um horizonte de propaganda não se aplica nem a quem tem 70 ou 80 anos. Não daquele jeito. A menos que queiram, as mulheres idosas – para usar a classificação da OMS – já não usam exclusivamente as roupas floridas que sempre constituíram uma categoria à parte de qualquer moda, os vestidos de vovó. O pouco da roupa que aparecia na foto da senhora revelava uma padronagem de flores na mesma cor dos olhos dela, azul claríssimo. Tons sóbrios e neutros, o must para as mulheres de 60. Nos anos 1920.

Também não lembro de uma mulher de 60 que use o penteado da senhora do outdoor. Tenho amigas quase lá ou já na sexta década que cansaram de pintar o cabelo, mas o branco delas não se parece com uma nuvem flutuando em volta da cabeça. São cabelos compridos, curtos, quase raspados, totalmente brancos, ou em processo, mas com tanta personalidade que duvido alguém achar que envelhecem suas usuárias. Para quem quer, o branco é o novo loiro, cor que antes era o destino de todas tão logo as raízes acusavam a falta da melanina.

Turma do ódio, só não me entenda mal. Não estou dizendo que uma mulher de 60 agora tem que sair por aí com um “Fuck you” estampado na camiseta. Cada uma escolhe o seu estilo e pronto. Apenas lembro aos profissionais de vendas que o melhor lugar para se viver depois dos 60 – enquanto se tiver saúde para gozar no final, como bem definiu a septuagenária Rita Lee – não é um prédio com bancos na portaria e botões enormes no elevador: é a própria vida. Produzindo, amando, aproveitando, lutando, resistindo. Se nos bons textos o excesso de gerúndios deve ser evitado, na vida, e isso em qualquer idade, é recomendável que a gente abuse deles.

Vai vendo. Vai vivendo.

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Ainda sobre a vida. Bernardo Henrique Dalla Costa, de três anos, foi diagnosticado aos seis meses de idade com Atrofia Muscular Espinhal Tipo 1, a AME1, tipo mais grave da doença rara, progressiva e degenerativa que afeta todas as funções do corpo. A cada ano, o Bernardo precisa tomar seis doses de um medicamento chamado Spinraza que custa R$ 364 mil – cada dose.

O SUS não fornece e a vaquinha online é a única esperança da família para diminuir o sofrimento do Bernardo. Qualquer contribuição é bem-vinda pelo site da vaquinha Juntos pelo Be.

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