Claudia Tajes: Agora só falta dezembro

Deve ser efeito do 2016, que vai chegando ao fim e de tudo o que aconteceu até esse 3 de dezembro. Só sei que, depois de mais um ano nas costas, a sensação é a de ter levado uma surra.

Se 2016 fosse um filme, o roteirista já teria sido demitido, e por justa causa, há muito tempo. A cada reviravolta, lembro dos meus chefes (são tantos) dizendo: isso não é verossímil, exagerou na forçação de barra, o público não é bobo para acreditar em uma cena dessas. Seja lá quem pensou no enredo de 2016, que fracasso de bilheteria.

Desatadora de Nós, a santa de cabeceira dos brasileiros

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2016 lembrou um programa daqueles em que as pessoas fazem qualquer coisa para sobreviver. Receber uma parcela de R$ 500 no final do mês: nem o No limite pensou em prova tão cruel. O requinte de sadismo eram as entrevistas que acompanhavam os depósitos minguados. Às vezes, dava vontade de assumir a responsabilidade. A culpa é do meu pai, que foi funcionário público, e da minha mãe, pensionista por alguns anos. Estejam onde estiverem, eles quebraram o Rio Grande.

Se 2016 fosse um reality show, seria o Largados & pelados. Largados à própria sorte e com o bolso nu. Estrelando, ora quem: nós todos.

Vem aí, Oxóssi, o orixá da fartura. Oxalá!

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Cada coisa que se ouviu em 2016. E cada coisa que se leu. Se 2016 fosse um programa de humor, o bordão tinha que ser o de um velho personagem do Jô Soares: “Fica vermelha, cara sem vergonha”. Mas anos e anos de falcatruas acabaram com qualquer possibilidade de rubor nas faces sem vergonha. Nada como a prática.

A nossa Black Friday – que em nada se parece com a data copiada da matriz – é a cara de 2016. Muitas ofertas que, na hora da verdade, não se cumpriram. Cada promessa mais furada que a outra. Aquele telefone que a fábrica desistiu de produzir porque andava explodindo, um que não pode entrar nem em avião, estava com o preço realmente baixo em várias lojas. Mas se o troço pode explodir, o certo não seria parar de vender? Se 2016 fosse uma promoção, o anúncio diria: bomba. Igualzinho ao celular da Black Friday.

Enquanto o pessoal de Brasília não decide se aquilo lá é um governo ou uma imobiliária, 2016 se parece com um apartamento comprado na planta que nunca saiu do papel. Se o Procon aceitasse reclamações, pediria minhas esperanças de volta.

Para levar na carteira: Expedito, o santo do impossível

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Teve uma época em que, nos meus desejos de final de ano, eu incluía a paz no mundo. Hoje, ficaria feliz da vida com trabalho para todos e juros mais humanos. Sustentar o banco sai pornograficamente mais caro do que pagar as contas de uma família. Seja como for, agora só falta dezembro. O jeito é juntar forças e resistir. Nossa sorte é que o brasileiro não desiste nunca e que o gaúcho é forte, aguerrido e bravo. Porque outros menos cascudos já teriam entregado a rapadura há horas.

Algo para a gente se apegar: 2017 será regido por Oxóssi, o orixá das florestas, dos animais, da fartura, do sustento, do alimento, da sabedoria, amante das artes e das coisas belas. Que tenha um lindo mandato.

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