Claudia Tajes: Ah, WhatsApp, eu te quero, eu te odeio

Foto: Pixabay
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De repente começaram a chegar mensagens & imagens de números desconhecidos. Ah, WhatsApp, eu te quero, eu te odeio. Facilita tanto para algumas coisas, mas também facilita tanto a invasão da intimidade da gente. Por exemplo: todas as lojas em que eu já comprei na vida, e mais todas em que jamais estive, agora me mandam WhatsApps para avisar de suas promoções imperdíveis. Algumas falam: este zap é para lembrar que está tudo com 50% até sexta. Podia estar até com 99% de desconto. Loja que manda zap é riscada do meu caderninho.

No caso da overdose de mensagens, eu havia sido conduzida, coercitivamente, para um grupo onde alguém vendia algo. Respondi “que absurdo ser adicionada à revelia”, saí do grupo e bloqueei o tal do número.

Segundos depois, outro WhatsApp, de outro número. Uma senhora que eu conheço, mas que não está na minha agenda, escreveu que era a responsável por me adicionar ao grupo aquele. E deu sua justificativa: não é terreno, é pousada!

Poderia ser casa, apartamento, castelo, hotel cinco estrelas, cabana, cobertura, loft, apenas um quarto, uma simples cama, uma fazenda na divisa com o Uruguai, um casarão em Atlântida, um JK, uma unidade do Minha casa, Minha Vida, um palacete na Riviera, um iglu no polo norte, uma oca na floresta, uma barraca no Itaimbezinho. Podia ser qualquer oferta, de qualquer tipo, de qualquer valor, com financiamento vantajoso, com entrada só em 2028, com preço de mãe para filha, podia ser uma pechincha. O problema não era ser pousada e não terreno, o problema é que eu não queria ninguém me vendendo nada em pleno feriado de Carnaval e dentro da minha própria casa.

Muito apropriadamente, dia desses recebi – por WhatsApp – algumas regras de etiqueta bem-humoradas sobre o uso de celulares, aplicativos e redes sociais. Algumas delas:
“Se estiver no teatro, e a peça for chata, posso me distrair conversando no WhatsApp?” Até pode, mas antes faça seguro do aparelho. O diretor Gerald Thomas já interrompeu uma peça, pegou o celular das mãos do espectador e atirou na parede. Nunca se sabe o que pode acontecer.
“Se eu falar baixinho, posso atender o celular no cinema?” Não pode nem deixar tocar. Se precisar mesmo falar, saia da sala e atenda.
“Posso encaminhar correntes de e-mails e powers points com mensagens positivas?” Se você tiver filhos ou sobrinhos adultos, pode, mas só para eles. São as únicas pessoas que receberão sem bloquear você.
“Posso mandar uma mensagem pessoal na página de alguém no Facebook?” Pode, mas o resto do mundo não necessariamente está interessado em saber que você quer tomar uma ceva e comer um churras com o fulano. Fica melhor fazer isso em mensagens privadas.
“Escrevi uma bobagem no Twitter e me arrependi. Apago?” Pode apagar, mas dificilmente alguns dos seus contatos não terão visto. Relaxe e reze para que ninguém retuíte – e a coisa morra ali mesmo.
“Posso usar Photoshop na minha foto de perfil?” Pode, sempre lembrando que photoshop é como bebida: deve ser usado com moderação.
“Tem algum problema escrever tudo em maiúsculas?” Tem três: é chato para ler, deselegante e parece que você está gritando na cara das pessoas.
“Vou postar as fotos da festa. Posso marcar aquele amigo que desmaiou de tanto beber?” Definitivamente, não. Se você publicar a foto de alguém em uma situação embaraçosa, além da confusão que isso pode causar, ainda abre um portal: um dia, vai chegar a sua vez de ser marcado em uma foto constrangedora.
“Qual a regra para adicionar amigos a um grupo de WhatsApp?” A mais simples de todas: interesses em comum. Mesmo assim, não custa ser fino e perguntar antes se o amigo quer participar do grupo.
“Meu celular aperta no bolso e não consigo ouvir se toca dentro da mochila. Posso colocá-lo em cima da mesa de jantar?” Não. Compre uma calça com bolso maior ou um aparelho auditivo.
No mundo digital, tal e qual na vida de verdade, observar a etiqueta é a forma mais civilizada de se conviver. Não custa tentar.

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