Claudia Tajes: Ainda não inventaram nada capaz de concorrer com um bom livro

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As redes sociais que me desculpem, mas a tecnologia ainda não inventou nada capaz de concorrer com um bom livro. Nada talvez seja um pouco de exagero – mas bem pouco. Nas redes, depois de observar a emocionante vida alheia, costumo sair mais vazia do que entrei, ou frustrada por conta da minha existência de formiguinha, ou com raiva por certas postagens de alguns.

Já com um livro, bem, até pode acontecer de a gente não gostar, de se decepcionar etc. Pode mesmo acontecer de não se chegar ao fim. Como escreveu a amargamente bem-humorada autora norte-americana Dorothy Parker em uma resenha: “Esse não é um livro para ser sutilmente jogado de lado. Ele tem que ser jogado na parede com toda a força”. De qualquer jeito, só o fato de se dividir a intimidade com um livro já traz uma sensação boa. Uma ideiazinha, que seja, sempre vem dali.

Depois de um daqueles períodos de tanto trabalho e com prazos tão apertados para cumprir que a cama, longe de ser um lugar para leitura e/ou folguedos, se transformou apenas na possibilidade de apagar por umas horinhas, consegui retomar alguns livros que haviam ficado pelo caminho. Como a gente pode ficar sem ler, nem que seja um mísero capítulo por dia? Impossível não ter tempo para ao menos uma página. E qualquer meia página é melhor do que nada. É só sair 30 minutos mais cedo do Facebook e pronto, viramos leitores novamente. Foi o que me disse meu filho quando elogiei com entusiasmo um livro recomendado por ele: “Estava com saudade do Claudião leitor”. Claudião é como delicadamente me chamam em casa.

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O livro em questão é o Conto da Aia, da autora canadense Margareth Atwood. O romance ficou famoso por originar uma série que ganhou todos os prêmios no ano passado. Mas o livro é muito melhor. Um futuro próximo com baixíssimas taxas de natalidade em que as mulheres em idade de reproduzir servem apenas para isso, e as demais – chamadas de Não Mulheres – somem de circulação, assusta pelo que tem de possível. Tudo começou com cidadãos revoltados com a liberalidade dos costumes. Primeiro livros, revistas e obras de arte foram queimados, depois os filmes foram proibidos, então os corpos foram cobertos com uniformes quase vitorianos. Por fim, eliminou-se a vaidade, a autoestima e o prazer. Cuidado com o que você desejar nas próximas eleições.

Ler é tipo andar de bicicleta, a gente não perde o jeito nunca, mesmo sem praticar. E é mais fácil porque não exige bicicleta, rua sem buracos (o que, em Porto Alegre, é impossível) ou cuidados para não roubarem a nossa bike (o que, em Porto Alegre, é indispensável). Ler é também como ginástica ou regime, não dá para relaxar, senão a indolência vence. E são muitos os títulos para colocar em dia, sem falar nas novidades. Dando uma de Donna Indica, aproveito para recomendar três.

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Bem Longe de Casa são relatos de uma viajante compulsiva que sabe contar suas descobertas. A Luciana Tomasi, que volta e meia está na Índia, aqui traz histórias que se passam em várias partes do mundo. Autógrafos no dia 22, às 19h, na Santo Antônio, 877. E como o que o punk rock uniu, nenhum lançamento vai separar, ao lado dela estará Carlos Gerbase. Cineasta, professor, Replicante e, muito importante, marido da Luciana, o Gerbase estará assinando Anarquia É Utopia Faça uma Todo Dia, coletânea das crônicas que desde 2013 ele publica na Zero Hora e na internet. Ambos da editora Besouro Box. Pague os dois e leve os dois, porque valem a pena. Já o romance Brava Serena, de Eduardo Krause, que estreou bem com Pasta Senza Vino, está nas boas livrarias, publicado pela Não Editora.

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O espaço acabou e eu nem falei de 4321, romance de mais de mil páginas do meu autor preferido, Paul Auster, que finalmente terminei. A edição brasileira sai no dia 1º de junho. Um estímulo a mais para se aventurar? Dá para fazer levantamento de livro na cama enquanto a gente percorre quatro versões da história do mesmo personagem. O muque fica uma beleza e a alma, leve como só os grandes livros conseguem deixar.

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