Claudia Tajes: Até o homem mais primitivo pode ser sensível

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Onde termina a paquera e começa o assédio?
Em pleno 2018, é estranho que tantos ainda estejam em dúvida quanto a esse limite – que de tênue não tem nada. Depois de séculos de homens e mulheres coexistindo na base da lei do mais forte, sendo o homem considerado o mais forte por razões mais culturais que musculares, parece que o pessoal anda meio perdido quanto à forma de agir. Hashtag fica a dica: foi-se a época de bater com o tacape na cabeça da garota para arrastá-la à sua caverna. Ou de botar o olho na menina e mandar a guarda real sequestrá-la para seu uso e prazer. A regra é simples: a mulher sempre tem que querer. Só isso.

A principal das muitas diferenças entre paquera e assédio está no fato de que a paquera é um direito de todos. E de todas. É uma aventura, uma brincadeira, uma oportunidade, uma emoção, um divertimento, um comentário de bom gosto, uma olhada que não agride, qualquer coisa que não cause, imagina-se, dano a ninguém. Tanto pode acabar no fim da música quanto no fim da noite ou no fim da vida. Ninguém sabe onde a paquera vai dar, e essa é uma das graças dela.

Já o assédio é escroto sempre. Não tem definição melhor, em que pese a deselegância da palavra.
Onde termina a paquera e começa o assédio? Se botou a mão sem ser convidado, é assédio. Se forçou, é assédio. Se não aceitou o não, é assédio. Se encheu de desaforo porque foi rejeitado, é assédio. Se propagandeou seus atributos sexuais para quem não estava interessada neles, é assédio. Se apelou para a ignorância, é assédio – e chama a polícia. Como nada disso se parece em nada com paquera, não resta dúvida. Se foi inconveniente, é assédio. Muitos homens por aí, alguns até próximos, não concordam com o rigor da classificação. A gente ouve de tudo: é mimimi, exagero de malcomida, coisa de histérica. A um que apresentava argumentos assim, fiz a pergunta clássica: e se fosse com a tua namorada, filha, irmã, mãe? Resposta: eu ia lá e quebrava a cara do desgraçado. Pois é.

Se o assédio em geral é escroto, o assédio no trabalho é escroto e covarde. O sexual diz muito sobre o assediador. Se o sujeito precisa recorrer ao dito poder que tem na empresa para subjugar alguém, seja qual for o sexo da pessoa assediada, que homem incompetente ele é. Não estivesse acima dos demais no organograma, seria condenado à companhia das bonecas infláveis. Não dá para esquecer também o assédio moral, embora esse não seja exclusividade masculina. Humilhar e expor os mais frágeis, infelizmente, é uma das mais feias características da humanidade.

Agora mesmo, cientistas descobriram que o Homem de Neandertal, até então considerado o mais primitivo de todos, não era tão tosco assim. Arte rupestre e enfeites corporais produzidos entre 115 mil e 65 mil anos foram encontrados em quatro sítios arqueológicos da Espanha. Ou seja: se até os primos Neandertais tinham sensibilidade, não é possível que a gente siga reproduzindo o pior comportamento da nossa espécie. Meninos, rapazes, homens, não nos deixem sós. Contra o assédio, as mulheres precisam de vocês na peleia.

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Por falar em sensibilidade, a peça Pequeno Trabalho para Velhos Palhaços está em cartaz até 18 de março, sempre às 20h30min, no Teatro Renascença. Três palhaços desempregados, amigos de outros circos e carnavais, se candidatam à mesma vaga de emprego. Quem é mais forte nessa hora, a delicadeza da amizade ou a briga pela sobrevivência? Texto de Matéi Visniéc com direção de Adriane Mottola e as atuações de luxo de Arlete Cunha, Sandra Dani e Zé Adão Barbosa.

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