Claudia Tajes: Até quem não dá a mínima para futebol se pega vendo os jogos da Copa

Foto: Pedro Martins
Foto: Pedro Martins

Minha ideia era passar longe da Copa, ignorar os jogos, não dar a mínima para seleção alguma. Ora, Copa nessa situação, a gente passando trabalho (ou sem trabalho), caos político, caos econômico, caos geral. Enquanto os outros param, pensava eu, vou adiantar meus textos e até dar um jeito nos atrasados da vida. Tanta coisa sempre para fazer, agora vai. Mesmo estado de espírito do meu filho, que pela primeira vez não estava nem aí para uma Copa do Mundo.

Começou na quinta-feira. Enquanto eu tentava me concentrar, colegas na sala ao lado assistiam à abertura da Copa. Mora um comentarista em cada brasileiro, e não é diferente com os meus colegas. A cada observação deles, que vontade de largar tudo e ir para a frente da televisão. Então, começou Rússia x Arábia Saudita. Mora um técnico, um jogador de futebol e um Galvão Bueno dentro de cada brasileiro. Não é diferente com os meus colegas. No segundo gol dos russos, desisti das minhas boas intenções e me juntei à turma da TV. Depois, tive que ficar até tarde terminando os meus textos.

O primeiro jogo da sexta foi Uruguai x Egito. Não pretendia ver, tinha mais o que fazer. Mas que gaúcho, no fundo do seu coração, consegue não torcer pela Celeste? Estava tentando trabalhar e ver o jogo ao mesmo tempo, algo tão complicado quando assobiar e chupar cana, quando recebi uma mensagem do meu filho: a febre da bola me pegou. Ele, que passou meses desprezando a Copa, só precisou dos 90 minutos do jogo inaugural para se render outra vez. Larguei tudo e fui ver o Uruguai ganhar.

Não tinha como fugir. Se até quem não dá a mínima para futebol se pega vendo os jogos, como quem gosta vai ignorar Cristiano Ronaldo, Messi, Suárez, Cavani, Marcelo e, vá lá, o exibido do Neymar Jr. e seus novos cabelos loiros a um simples toque no controle remoto? Até a entrega desta coluna, islandeses e mexicanos estavam em alta pela façanha de passarem pela Argentina e Alemanha. Teve até foguetório em Copacabana quando o juiz apitou derrota dos nossos carrascos de 2014. É bom ver os mais fracos ganhando – coisa tão difícil de acontecer no campo quanto na vida, diga-se. E que tal o pequeno abalo sísmico que os mexicanos provocaram pulando de alegria em seu país depois de vencer a Alemanha? Agora imagina se vencerem a Copa.

A respeito da insatisfação de muitos com o empate entre a Seleção Brasileira e a Suíça, encontrei o trecho de um texto que o escritor Paulo Mendes Campos publicou em 1981 no livro Diário da Tarde. Saca só: “Quando o futebol começou, o goleiro ficava em solidão debaixo dos paus e dez eufóricos iam para a frente mandar brasa. O bom senso descobriu os zagueiros, acabando com essa guerra campal; mais tarde, o centromédio, que era um sexto atacante, recuou para ajudar mais a defesa; foram os australianos, dizem, os primeiros a transformar um atacante em defensor; os suíços, de pouca intimidade com objetos redondos, criaram em 1950 o famoso ferrolho, revelando aos boquiabertos dirigentes do mundo esportivo que um time medíocre pode endurecer uma partida desigual e perder de pouco. Aí, a aritmética defensiva começou a pular na cabeça dos matemáticos do futebol: o 4-2-4, o 4-3-3, o 4-4-2, o 5-4-1, o 5-5-0.”

Ferrolho, pois, não é novidade e não adianta reclamar dele. O jeito é fazer a cara do mascote 2018 da Seleção, o tal de Canarinho Pistola, e furar as muralhas humanas. O pessoal lá ganha bem, ah, se ganha, para resolver problemas desse tipo. A nós cabe ligar a TV em casa e soltar um grito que, de tão entalado que está, pode provocar um abalo sísmico por aqui também. Vale o risco. Que venha a próxima fase.

Leia mais colunas da Claudia:
:: Claudia Tajes: Filhas costumam ser muito críticas com suas mães
:: Baixinhos só deveriam se incomodar com a pouca altura na pista de um show
:: O quarto filho dos meus pais foi concebido em uma falha do anticoncepcional

Leia mais
Comente

Hot no Donna