Claudia Tajes: Baixinhos só deveriam se incomodar com a pouca altura na pista de um show

Foto: Pexels
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Toquinho de amarrar bode. Pintor de rodapé. Salva-vidas de aquário. Lenhador de bonsai. Jóquei de hamster. Que baixinho já não ouviu um desses apelidos? Basta não atingir determinada marca na fita métrica que a altura da gente vira piadinha para alguns. Verdade que essa marca varia de acordo com os tempos. De 1914 para cá, a altura média do brasileiro aumentou 8,6 centímetros e hoje é de 1m73cm para os homens e de 1m60cm para as mulheres. Somos mais altos do que a população do Timor Leste, mas tampinhas perto dos holandeses. Tudo é uma questão de perspectiva.

Pessoalmente, nunca me importei com a minha estatura e jamais me incomodou ver o mundo daqui onde estou. A não ser em uma importante e específica ocasião: um show.
Por questão de sobrevivência, baixinhos deveriam escolher o conforto de uma cadeira para assistir aos espetáculos pelos quais, no mais das vezes, pagam uma boa grana. É a garantia de que estarão bem instalados e, mesmo que as cadeiras fiquem mais distantes do palco que a famigerada pista, eles conseguirão enxergar tudo. Quem achar muito longe, que leve um binóculo.

Foi o que vi – ou melhor, não vi – no último dia 20. Rio de Janeiro, confins da Cidade Olímpica, lá onde o diabo perdeu os tênis de corrida. Éramos milhares de fãs apaixonados pelo Radiohead. Quem conhece a banda sabe do que estou falando. Para quem não conhece, sem nenhum medo de errar, recomendo uma entradinha em qualquer dessas plataformas de música. Vai ser amor à primeira ouvida.

Compramos nossos ingressos em outubro do ano passado. Queria cadeira, fui voto vencido. Meus dois acompanhantes não abriram mão de assistir da pista. “Show sentado? Que caretice.” Uns dias antes, ainda houve a possibilidade de trocar as pistas por cadeiras. Meus acompanhantes firmes em suas convicções. 2×1 para eles. Teria menos graça assistir sozinha, sem ter com quem comentar e desafinar junto.

Procurando um canto onde mais de cinco corpos não ocupassem o mesmo lugar na falta de espaço – muitos deles fumando, para piorar –, tudo o que eu via eram nucas, omoplatas e bundas. Impossível enxergar o palco. A banda entrou, e eu só soube pela gritaria alheia. Quando ouvi o vocalista Thom Yorke, por quem eu e mais muitxs largaríamos a família, não contive o choro. Não de emoção, mas de frustração. Não conseguia ver nada.

Meu namorado, culpado por ter votado a favor da pista, me ofereceu a cacunda. Sinceramente, não cheguei até aqui para subir na cacunda de um barbudo. Há que se manter o decoro. Acabei abandonando meus acompanhantes e fui negociar a ida para as cadeiras com um segurança no início insensível, mas que percebeu o desespero da fã e abriu a grade. Um facho de luz iluminava a cadeirinha solitária, lá no fim do mundo, para onde subi e de onde assisti à metade de um dos melhores shows da minha já longa vida. Comentando com desconhecidos e desafinando sozinha, com toda a graça de quem enfim fez o que queria desde o início.

Fui daquelas de colar pôster de ídolos na parede do quarto. Dessa vez, para nunca mais esquecer de uma noite linda com o Radiohead, vou colar a foto da minha cadeira.
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Já que o assunto é show, vem aí um para se assistir confortavelmente instalado no novíssimo Teatro da Unisinos de Porto Alegre. Dia 6 de maio, às 20h, o guitarrista Lee Ranaldo, conhecido por ser um dos integrantes do Sonic Youth – banda de rock que até os mais eruditos respeitam –, apresenta seu trabalho acústico pela primeira vez em Porto Alegre. Para pegar um lugar daqueles onde se vê tudinho e pagar só meia entrada levando um quilo de alimento, é só comprar aqui: maisshows.com

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