Claudia Tajes: Entre os abandonados pela Pátria da Beija-Flor, não faltaram as crianças que estão crescendo sem futuro

Fotos: AFP
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E eis que de repente alguns blocos e escolas de samba saíram para a rua com assuntos que pegaram de surpresa o país do Carnaval. Se teve Rainha de Sabá, povos orientais e Ilê Aê nas temáticas (sempre tem), também teve crítica – com a criatividade que o Carnaval pede. Desde o Cristo mendigo de Joãosinho Trinta, e isso em 1989, não se via tanta consequência na avenida. Escravidão – a que ainda não foi abolida e está muito longe de ser –, a má política que beneficia pouquíssimos e dá uma sonora banana para a população, a falta de vergonha de governantes e aspirantes. Foi bonito de ver.

Destaque para a pequena grande Paraíso de Tuiuti, vice-campeã desbancando as gigantes, e a campeã Beija Flor. No desfile dela, teve até carro com a farra dos guardanapos de Sérgio Cabral e Adriana Ancelmo, além de um protesto geral contra a intolerância. É, o Carnaval mudou.

Curioso é que a ideia da Beija-Flor partiu dos 200 anos da obra Frankenstein. E não é que fez sentido? Nas palavras da escola: “Quem é o verdadeiro monstro nessa história? A criatura de aparência repugnante, ou o criador, com seu egoísmo, seu orgulho, sua arrogância e seu coração corrompido? (…) A criatura é o nosso espelho da vida refletindo nossas falhas mais gritantes, nossa falta de amor com o que nos cerca e com o próximo, e o nosso desrespeito às diferenças”.

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Há quem diga que não faltarão políticos defendendo a Escola de Samba sem Partido em 2019. Ou isso ou, assim como o prefeito Crivella sorrateiramente fez, a turma que bota a mão sem piedade no que é da gente vai preferir passar o Carnaval na Europa, bem longe das transmissões que escancararam a ladroagem entre brilhos e penas.

Ganância veste terno e gravata
Onde a esperança sucumbiu
Vejo a liberdade aprisionada
Teu livro eu não sei ler, Brasil!

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Entre os abandonados pela Pátria da Beija-Flor, não faltaram as crianças que estão crescendo a bangu, sem futuro algum. Tanta criança abandonada e então encontro um casal de amigos no supermercado. Eles contam que há dois anos e meio esperam para adotar uma criança. Gostariam que fosse menina, mas não fizeram exigência alguma, pode ter até quatro anos, ser de qualquer cor, de qualquer jeito. Meus amigos já foram considerados aptos para a adoção, mas esperam há dois anos e meio para conhecer a sua filha. Enquanto isso, milhares de crianças já passaram da idade limite estipulada por eles.

Na metade de 2017, o Brasil tinha 47 mil crianças em abrigos, mas apenas 7,3 mil em situação de adoção. A Justiça leva um tempo grande demais para destituir o poder da família biológica sobre as crianças, o que faz com que elas acabem crescendo nos abrigos – e perdendo o perfil de adotabilidade. Diferente dos meus amigos, a maioria quer um bebê branco e sem doenças congênitas. Apenas 50% dos postulantes a pais aceitam crianças negras e somente 6,3% adotariam uma criança com mais de oito anos.

Também segundo dados de 2017, o Rio Grande do Sul tem 575 crianças cadastradas, sendo 212 em Porto Alegre – e não necessariamente nas condições que a maioria dos candidatos a mãe e pais gostaria. Em todo o Estado, 5.741 pessoas esperam para adotar, 503 delas em Porto Alegre.

Para quem está na luta pela adoção não se sentir tão sozinho, ONGs como o Instituto Amigos de Lucas
(@amigosdelucas) e a Associação Nacional de Grupos de Apoio à Adoção (angaad.org.br) podem dar orientação. E mostrar também o projeto de apadrinhamento afetivo, iniciativa que estimula a criação de vínculos com as crianças abrigadas e, mesmo que não resulte em adoção, mostra para elas um modelo de família fora da instituição de acolhimento.

Deixando para lá a Copa do Mundo, nosso próximo grande evento serão as eleições. Vai melhorar, vai piorar? Para não ver o horror desfilando novamente na avenida em 2019, a única saída é cada um ser protagonista desse show.

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