Claudia Tajes: Bombom de figo

Frase de um amigo na semana passada, com um copo de cerveja na mão e uma lágrima que por certo cairia, não estivesse ele usando toda a sua força para segurá-la: Eu me sinto como um bombom de figo.

Cabe uma explicação. Segundo o meu amigo, o bombom de figo é o último que sobra na caixa dos bombons sortidos, a que mistura a sabores como chocolate, chocolate branco, licor de cereja e avelãs cremosas aqueles recheados com uma pasta com gosto próximo, ou nem tanto, ao das frutas. Os bombons nobres, digamos assim, vêm sempre em menor número e somem na primeira passada. Aí começa a disputa para pegar os menos piores – não se ofendam, fabricantes e apreciadores de bombons de frutas. Mas que é uma decepção ter que escolher entre laranja, ameixa e passa de uva, é.

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Segundo o meu amigo, o bombom de figo é sempre o que sobra na caixa. E é assim que ele anda se sentindo nos últimos tempos. Uma sobra.

Preciso concordar com ele sobre o figo. Durante muitos anos ganhei de presente da avó do meu filho uma figada, que ela fazia com muito capricho e que eu só comia por respeito e carinho. Lendo agora sobre a fruta, vejo que são tantas as vantagens que eu deveria me obrigar a gostar. Vamos aos fatos.

O figo é originário da Ásia Menor e são muitas as suas variedades, todas elas ricas em fibras, potássio e outros minerais e vitaminas. Para quem evita botar o pé na jaca, é excelente: 100 gramas têm apenas 74 calorias. Entre os benefícios de incluir o figo na alimentação constam a redução da pressão arterial, prevenção da diabetes (recomenda-se ingerir também as folhas da figueira), mão amiga contra a constipação, bom para anemia, ossos, músculos, fadiga. E por aí vai. É só entrar no Google que aparece tudo isso.

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Sem falar na relação do Rio Grande com a figueira, ela que é quase um símbolo do pampa – e d’O Tempo e o Vento do Erico.

Capitulei. Meu reino por um figo.

Mas o meu amigo não está nem aí para as propriedades da fruta quando fala em se sentir um bombom de figo. O problema não é nutricional, é de autoestima. O coitado daria tudo para ser um bombom recheado com doce de leite. Acontece que os atrativos dele não são tão evidentes. É inteligente, mas não exibe conhecimentos aos gritos nas ocasiões sociais. É engraçado, mas não faz da mesa do bar um palco para contar piadas ou tirar sarro dos outros. É bonito do seu jeito, educado, agradável, confiável, nunca se envolveu em qualquer maracutaia e não posta selfies. Nesses tempos exibidos em que vivemos, está condenado ao ostracismo do bombom de figo. Ninguém pega. Ou só pega quando todas as outras opções já acabaram.

Vou mandar o link com as qualidades do figo para ver se o cara se anima. Mas entendo como ele se sente. Por muito tempo da minha vida, por exemplo, até o presente momento, venho me achando não a goiaba, mas o bichinho dela. Mas deixa para lá, essa coluna é sobre bombom de figo. Para esta e outras síndromes da psicologia agrícola – goiaba, abacaxi, pepino – existe a terapia. Se você é como o meu amigo e eu, para o seu próprio bem, não saia de casa sem ela.

 

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