Claudia Tajes: brincar de pai

Menina até brinca de bola e carrinho, mas duvido um menino se interessar por um bebê de plástico que tem pipi e faz xixi. No caso de se interessar, periga cair o mundo. Mas dia desses estive em um evento em que a palestrante defendeu ser essa uma das razões para os guris não desenvolverem o instinto de proteção que as guriazinhas demonstram desde cedo. Bota bobagem nisso. Dê um bebê de brinquedo para um menino e ele não vai cuidar, vai é chutar, atirar, desmontar e derreter. Se despertar algo no monstrinho, será não amor, mas ódio inclusive por quem deu o boneco. Fico pensando no que aconteceria se eu presenteasse o meu filho com um bebê de plástico em lugar do Dragon Ball e do Power Ranger da infância. Hoje eu certamente seria mãe de um revoltado. Aposto que até os meus futuros netos sofreriam as consequências. Pode ser ignorância, mas a mim não parece que brincar de boneca vá ajudar um pequeno bárbaro a ser um bom pai mais tarde. Que me desculpe a palestrante.

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Com tanto pai bacana por aí, duas desonrosas exceções foram notícia quase ao mesmo tempo. No Paraná, o pai (?) sem noção que incentivou o filho a brincar com o tigre – e agora culpa o tigre pelo braço amputado do menino. Em Faxinal do Soturno, o pai (?) que deixou o filho de 12 anos preso às ferragens de um carro e fugiu do local do acidente. Será que a palestrante acredita mesmo que adiantaria esses dois terem brincado com o boneco Manequinho para desenvolver o mais mínimo senso de responsabilidade e proteção?

E sobre os pais de antanho – palavra mais de antanho que essa, impossível. Lembra quando o pai era uma autoridade distante e formal, instância máxima para colocar ordem nos conflitos da família? “Deixa o teu pai ficar sabendo”, diziam as mães para os filhos desobedientes. E então era o terror até a hora em que ele soubesse. Sempre me perguntei que tipo de pai avisava: isso vai doer mais em mim do que em ti. Lá em casa o pai nunca distribuiu suas sapatadas educativas, digamos, a partir deste princípio. Não mesmo. A ideia era a de endireitar pela dor. Se doía nele, era bem mais tarde. Bons pais também cometem os seus equívocos. Em compensação, no resto do tempo, o meu pai era engraçado, espirituoso e amoroso. Os corretivos dele foram até fáceis de esquecer. O resto todo é que faz falta nesses segundos domingos de agosto.

00a3b001Meu pai antes de virar pai: que tranquilidade

Nessa mesma época de mão pesada com as crianças, um amigo da nossa família, professor simpático e gentil, se apregoava adepto da “pedagorrégua” e do “psicotapa”. Na brincadeira – só que não. Ainda bem que não teve filhos.

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Alguém daria um bebê de plástico para ele?

 

E sobre o instinto paternal precoce nos meninos, em uma ocasião o meu filho quis brincar de ser meu pai. Com uns três anos, naquela idade em que a gente precisa largar tudo e dar atenção para o petiz, senão ele não afrouxa. Na brincadeira, o guri havia cozinhado e a mim cabia comer. Já me alcançou o prato imaginário assim: pegue-o e limpe-o, senão o pai vai ficar furioso (de tanto ver desenho, criança pequena só fala amarre-o, prendam-no, matem-no etc, etc). Sem outra alternativa senão entrar no clima, elogiei: hum, que feijão gostoso. E ele: não é feijão, burra, é chiclé. Foi a primeira e única vez em que brincamos de pai e filha.

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Meu avô, um pai de antanho na estica

E já que a revista de hoje é dedicada aos homens, uma frase de porta de banheiro diz que as mulheres fazem tudo o que eles fazem, só que de salto alto. A minha versão: as mulheres fazem tudo o que os homens fazem. Só que com culpa.

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