Claudia Tajes: Cada um tem o Carnaval que pode

Foto: Omar Freitas
Foto: Omar Freitas

Não é que eu não goste de Carnaval, o problema é que não consigo ficar alegre de uma hora para outra só porque o calendário mandou. O pior é que invejo quem consegue. Os que vão para a Cidade Baixa dançar ou os que nem dormem para sair no Suvaco do Cristo, um dos blocos mais tradicionais do Rio de Janeiro, que às oito do domingo passado já tinha milhares de fantasiados concentrados para o desfile das dez da manhã no Jardim Botânico. Já eu, na mesma hora, acordava para fazer o de sempre, terminar os trabalhos atrasados da semana.

Desci para ir ao supermercado e encontrei a calçada cheia de piratas, odaliscas, sambistas, super-heróis e heroínas, meninos vestidos de Anitta e Amy Winehouse, um senhor de Elvis, pelo menos um John Lennon e três (fora) Micheis Temers. Ou talvez um deles fosse a ministra Carmen Lúcia, aqueles cabelos prateados e o ar soturno dos dois sempre me confundem. No supermercado, ao som dos sambas-enredo de 2018, o pessoal já pegava no batente enquanto a rua fazia festa. Não só eles. As bancas de suco de esquina, as padarias, o metrô, os camelôs vendendo adereços brilhantes, tudo funcionava como se fosse segunda-feira no domingo de pré-Carnaval.

No caminho de volta, parei para um café na padaria e esperei meu lugar no balcão entre bailarinas, criaturas vampirescas, a Bela e a Fera, diabas, uma enfermeira, uma Angelina Jolie. Com minha roupinha qualquer coisa, eu destoava dramaticamente na fila. Se alguém me perguntasse, diria que estava vestida de dona de casa em dia de faxina. Dividi o espaço com uma dominatrix e um doutor Albieri – só sei porque ele tinha duas máscaras do Murilo Benício enfiadas uma em cada braço, os nomes Lucas Ferraz e Diogo Ferraz escritos nelas com canetinha fluorescente. Novela
O Clone, vocês sabem.

Mais tarde, quase dois milhões de pessoas estiveram no centro do Rio acompanhando a passagem dos blocos. Fora os outros milhões espalhados pelos bairros. Isso a uma semana do início oficial dos trabalhos.

Como Carnaval não precisa ser alienação, o bloco Simpatia é Quase Amor, que há 34 anos sai em Ipanema, decidiu cantar o desrespeito do prefeito evangélico Crivella com o samba e as religiões afro. Resultado: foi impedido de se concentrar no reduto de décadas, a praça General Osório. Ainda assim, levou mais de 60 mil pessoas para a beira da praia. Um trechinho do Samba da Adivinhação: Crer eu não Cri/ Vela eu não acendi/ Vim pro sol de Ipanema/ Afastar assombração/ De quem não sabe a diferença/ Entre a sua crença/ E a nossa tradição/ Ensaio de escola? Ele mela!/ Roda de samba? Atropela/ Macumba? Não tolera!/ Só gosta de bloco Nutella/ Ele não cuida/ Nem zela/ Qual o nome do hômi?

Aliás, Porto Alegre também vai ter protesto na avenida. Respondendo ao corte da verba para o Carnaval – que já fazia parte do orçamento das escolas –, a Embaixadores do Ritmo manda um recado para o prefeito: Fiz minha fantasia/ Sei que tu não queria/ Mas não vou desistir/ É pau, é pedra/ Já é março, evolua!/ Tu não é dono da rua/ Deixa o meu povo ser feliz.

Contra o assédio: as foliãs (há quem prefira “folionas”), por mais peladas que queiram ir para a festa, estão usando leques e tatuagens onde se lê: NÃO É NÃO. Mais claro que isso, só spray de pimenta nos tarados e inconvenientes. E o que dizer das fantasias que criticam o que a gente está vendo todos os dias no país, senão que são a mais alta expressão da nossa criatividade? Todas xexelentas, esculhambadas, improvisadas como as situações que representam: Corredor de Hospital Lotado, Auxílio-Moradia de Juiz, Universidade Falida, Mosquito da Febre Amarela. Nota dez no quesito Originalidade.

Um homem com mais de 80 anos – no mínimo – passou vestido de branco da cabeça aos pés, toda a classe do passista no domingo que mal começava. Quatro fortões sem camisa e uma travesti de peruca curta platinada surgiram na calçada cantando e rindo. Bingo: fantasia de Ministra do Trabalho na Lancha. Eu, que poucas vezes usei fantasia na vida, eterna adepta do bloco dos sem-graça, me contagiei com a rua. Cheguei em casa, troquei a roupinha qualquer coisa pela produção mais colorida (e ainda faltou cor) e abri o computador para trabalhar. Cada um tem o Carnaval que pode. Que o seu seja cheio de graça.

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