Claudia Tajes: A cadeira do papai

Príncipe William, bebê George e o trono do papai (Foto: The Britsh Monarchy, Divulgação)
Príncipe William, bebê George e o trono do papai (Foto: The Britsh Monarchy, Divulgação)

Ela ficava no ponto mais nobre da sala, com vista privilegiada para a televisão. Reclinava, balançava, tinha apoio para a cabeça e banqueta para os pés. E, no mais das vezes, as crianças não deveriam chegar perto – mas claro que chegavam para reclinar, balançar e azoeirar. Ela, a cadeira do papai, era uma atração dos lares brasileiros no tempo em que o homem reinava nos seus domínios.

Carolina Bittencourt, Arquivo Pessoal

A cadeiro da filhinha: esses são o Chico e a Rosa (Foto: Carolina Bittencourt, Arquivo Pessoal)

Na minha casa, infelizmente, não havia uma cadeira dessas. Consultado a respeito, meu pai sequer considerou a hipótese de ter um trono para chamar de seu. A verdade é que ele pouco ficava na frente da televisão, espectador de noticiários e dos jogos do Grêmio. Ainda assim, a cada Dia dos Pais, a esperança de brotar uma daquelas na nossa sala era alta – não da parte dele, mas dos filhos. Como nunca viesse, restava pegar carona da cadeira do papai dos amigos – mas só por alguns segundos e depois de esperar por um tempão na fila.

Já o meu avô tinha uma poltrona preferida para ouvir as notícias depois do almoço. Antes de voltar ao trabalho, cochilava um pouquinho com o radião da sala de estar ligado na Guaíba. A poltrona dele tinha um guardanapo de crochê no encosto e o assento de couro já um tanto gasto pelos anos de uso – desde antes dos boletins extraordinários sobre a queda de Getúlio Vargas, com toda a certeza. Para os netos, era uma poltrona sagrada, a única que jamais teria farelos de bolacha ou algum doce derramado. O respeito era bonito e conservava os dentes, como se dizia nos tempos pré-psicologia.

Passeando pelos anúncios das lojas de móveis, vejo que as cadeiras do papai ainda existem, agora tecnológicas e caras. Algumas fazem massagens, têm sistema de aquecimento, painel eletrônico e entrada USB. Um dos anúncios diz que o papai senta ali, liga a TV e esquece de tudo. Já pensou o perigo?

No tempo em que  o pai era o rei da casa. (Foto: Reprodução)

No tempo em que o pai era o rei da casa. (Foto: Reprodução)

Pessoalmente, não lembro de nenhuma casa de hoje com cadeira reservada para o pai na sala. Pai que há muito deixou de ser o sujeito alheio à problemática da família, preservado dos pequenos perrengues pela esposa eficiente, Supremo Tribunal Doméstico só acionado nos casos mais graves. A autoridade para quem a mãe guardava o maior bife e que já chegava trocando o canal da novela por outro chatíssimo, com programas sobre a reprodução das trutas e corridas de caminhão. Depois que os pais viraram gente comum, o segundo domingo de agosto passou a ser igual a todos os outros, mais um Dia dos Filhos. E aposto que agora eles têm muito mais razões para comemorar.

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