Claudia Tajes: Caldo de carne

Um dia, pequeno ainda, meu filho me flagrou na cozinha e se horrorizou: tem caldo de carne na nossa comida?

Eu usava caldo de carne, aquele cubinho de tempero pronto, da mesma maneira como vi minha mãe usar pela vida inteira. Era um recurso prático que facilitava na hora de acertar o gosto dos molhos e do feijão. Aliás, todo mundo elogiava meus molhos e meu feijão. Bem verdade que, às vezes, eu me perguntava o que aquilo ali continha de fato, mas sem intenção de parar de usar. Eu trabalhava tanto durante o dia, cozinhar era só uma obrigação que ainda me esperava ao chegar em casa. Até que uma criança de seis anos me questionou: tem caldo de carne na nossa comida?

Já tinha visto aquela cara do meu guri em outras ocasiões. “Precisa fechar a torneira enquanto escova os dentes.” “Não pode esquecer a porta da geladeira aberta.” “Melhor deixar a luz do corredor apagada de noite”. Eram reações de repúdio a hábitos que eu trazia de outros tempos, em que o mundo era mais selvagem e ninguém se preocupava com a água, com a energia, com o lixo. Deu no que deu. Felizmente – para mim –, o colégio do meu filho desde cedo martelou na cabeça dele um pensamento sustentável, para usar uma das palavras mais cansadas da atualidade. Hoje somos dois chatos a fazer tudo como manda o figurino de uma convivência mais respeitosa com o meio ambiente.

Galã conquistador, um papel em baixa | Foto: divulgação, TV Globo

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Não sei se vale a relação, mas quando o ator José Mayer divulgou a tal cartinha onde se explica pelo assédio à figurinista Su Tonani, a imagem que me veio foi a do caldo de carne. A culpa é dos hábitos de uma geração. Conta outra. A culpa por eu usar caldo de carne não era da minha pobre mãe, eu que decidisse por mim o que devia ou não entrar na minha cozinha. José Mayer quis arrastar com ele boa parte da pirâmide etária do planeta. Alto lá. Meu pai era mais velho (e em tese, mais machista, pela lógica josemayeriana) e não agia assim. Meu sogro tem a mesma idade do nosso ator e nunca se portou como galã com quem não queria nada com ele. No trabalho e na vida, convivi com homens de todos os tipos, condições e gerações que assediavam geral, e com outros que tratavam as gurias com o devido respeito. Desculpa aí, José Mayer, mas não é um problema geracional, é de caráter mesmo.

Clark Gable: no tempo em que o olhar 43 funcionava

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Tirando o caldo de carne da comida, a pessoa elimina do cardápio: sódio (um monte), gordura hidrogenada, aromatizantes, corantes, espessantes, glúten e coisas mais obscuras, como um certo inosinato dissódico, por exemplo. Leva mais tempo e demora um pouco para acertar a mão no tempero usando só ingredientes fresquinhos, mas o resultado compensa muito. No meu caso, inclusive, a cozinha virou um prazer agora que acertar no sabor depende de mim – e não do ato mecânico de jogar um cubinho na panela. Tirando a mania de achar que o próprio pinto é um presente divino que mulher alguma do mundo recusaria, rapazes à la José Mayer podem descobrir o que os mais preparados sabem há tempos: o que vem por consentimento, e não por assédio, é um dos prazeres mais finos da vida. Sempre é hora de experimentar.

Debochando dos garanhões: esse era o Zé Bonitinho | Foto: Divulgação

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