Claudia Tajes: Chá de sumiço

Foto: pexels
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Onde vão parar as coisas que a gente perde pela casa? Grampos de cabelo, clipes, agulhas, alfinetes. Para qual dimensão vão quando desaparecem das gavetas? Sempre acho que tenho muitos, compro bastante porque sei que vão sumir mesmo. Mas não adianta. Quando mais preciso, por mais que esvazie as caixinhas e vire as latas todas, só encontro um clipe torto e enferrujado que já não segura mais nada. Onde foram parar todos os outros? Mistério.

E o livro que até a semana passada ocupava um lugar quase vitalício na prateleira? A madeira ainda tem a marca dele, dá para lembrar perfeitamente da posição que ocupava, mal colocado entre os autores da letra C, apesar do sobrenome do seu autor começar com A. Por que não guardar os livros em ordem alfabética, como no dia em que a estante foi arrumada pela primeira vez? É nisso que dá amontar volumes na horizontal em cima dos outros na vertical e tapar a lombada dos que já estão com as edições que vão chegando. Ou será que eu emprestei? E para quem? Os livros que somem pela casa são um mistério digno dos melhores romances policiais.

Meias. Meias merecem um capítulo à parte porque nunca somem aos pares. É sempre um pé que desaparece. Não adianta procurar na gaveta, na cama, dentro dos tênis e sapatos. No fundo da máquina de lavar, atrás do tanque, no vão do sofá, em algum canto do banheiro: nada. Diz a lenda que os pés de meia perdidos são levados por duendes por pura galhofa, já que eles usam tamanhos bem menores e detestam coisas que não combinam entre si. É possível. Na minha casa, por incompetência mesmo, há muito deixei de me preocupar com os pares de meia. Cada um se vira como consegue, tentando ao menos manter os tons de cada pé próximos – o que em geral não acontece.

O papelzinho com o telefone que não podia ser extraviado de jeito nenhum. Por que não anotar no celular? Porque algumas coisas, como anotar número de telefone, são tarefas analógicas. Requerem um papelzinho e uma caneta mordida na ponta. Talvez seja a hora de repensar esse hábito ancestral.

Outro clássico: as chaves. Deixá-las na fechadura ou bem à vista, em cima da mesa ou do balcão, seria óbvio demais. Penduradas em um porta-chaves, então: para que simplificar? Por isso as chaves acabam indo sempre para algum lugar de que ninguém vai lembrar, um bolso, uma mochila ou a sacolinha do supermercado, por exemplo. Visita do chaveiro para fazer toda a mão aquela de tirar o miolo da fechadura para fazer uma nova: 200 reais. Vontade de morrer quando se encontra a chave perdida dentro da geladeira: não tem preço.

Nesse exato momento estou preocupada com a minha carteira, desaparecida dentro do apartamento minúsculo. Onde deveria, não está. Onde não deveria, também não. Mas carteira é outra dessas coisas com vontade própria, dessas que tomam chá de sumiço e que a gente por sorte encontra quando a tragédia da perda já parece consumada. Por certo a minha, daqui a pouco, aparecerá também. Só a carteira, é bom que se diga. Porque hoje, dia 19, o dinheiro que tinha nela já sumiu há muito tempo.

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