Claudia Tajes: a ciência dos presentes

Não é que eu não goste de Natal, é só que já gostei mais. Criança, esperava o dia com ansiedade, embora quase nunca ganhasse o que pedia. E nem sei se pedia ou se escolhiam por mim. Criança quietinha demais é assim, os adultos tomam conta. Mais tarde passei a achar o troço todo muito-capitalista-e-ligado-ao-sistema-e-etc-etc-etc. Nessa época, um dos desgostos da minha mãe foi me receber na ceia da família com o vestido de festa todo adornado pelos bottons da militância. Então cresci e parei de me revoltar por bobagem.

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Com o advento dos salários menos miseráveis é que descobri a minha preferência no Natal (e em todas as datas comemorativas, inclusive as descaradamente comerciais): dar presentes. Eu sou da ala dos que adoram dar presentes. Acertar na vontade do presenteado, conseguir surpreender: é comigo. Teve um tempo em que me dediquei a isso com seriedade. Nas viagens, encontrar o mimo exato fazia mudar o rumo dos passeios e a programação dos dias, o que já é exagero. Mas a procura pelo presente perfeito ainda me desafia. O pior é quando fico em dúvida e a vendedora empurra: “Leva, se a pessoa não gostar, ela troca”. A pessoa não gostar e ter que trocar. Eis aí o argumento para me fazer desistir de uma compra.

E quando a gente se engana feio pensando que vai agradar? Ao longo da vida isso me aconteceu, principalmente, com os namorados. Depois que eu quebrava a cabeça em busca do presente inesquecível e que parcelava em muitas e inesquecíveis vezes no cartão, o cidadão abria o pacote e nem disfarçava. “Legal, só que não tem nada a ver comigo.” Stress um deles dizer, ao abrir o estojo do relógio: “Eu jamais usaria um troço desses”. Em questão de segundos o relógio foi arrancado das mãos da criatura e atirado contra a parede. Restaram apenas as prestações a pagar. Eu ainda me revolto por bobagem.

00a7efa8Presente 1: do avião, nuvem em forma de coração

Já quando erram no presente comigo, daí até me emociono. Com certeza foi dado por alguém que não me conhece direito – ou que acha que me conhece. E que, apesar disso, ou exatamente por isso, gosta de mim.

00a7efabPresente 2: o Guaíba, esse lindo

Durante toda a minha carreira de redatora de propaganda, precisava fazer as campanhas dos clientes lá por agosto ou setembro. E daí era um tal de ajustar os anúncios e filmes tantas vezes que, quando o Natal chegava mesmo, já tinha perdido a graça. Hoje o que me perturba nem são os panetones desde outubro em pilhas nos supermercados, ou os duendes e ursinhos com touca vermelha e pompom dourado em cada canto dos shoppings: é a música natalina que toca sem parar. O vivente é obrigado a comprar guisadinho, papel higiênico e desinfetante ao som de harpas. Dá vontade de sair correndo. Sempre que recomeça o blim-blim-blim-blim-blim-blim ou que o “Éntáo é Nátál” da cantora Simone ecoa pelos corredores, os funcionários do supermercado deviam ganhar um adicional por insalubridade. Ninguém merece.

00a7efaaPresente 3: natureza no meio do caos

Eu já gostei mais de Natal – tanto que, neste ano, vou passar o meu no deserto. Claro que, enquanto me presenteio com a natureza, não vou esquecer dos meus queridos todos. Trago nem que seja um poncho indígena ou um colar de pedra falsa, qualquer coisa para dizer: estive no meio do nada e lembrei-me de você. Seja lá o que for, vai ser escolhido com amor e vontade de acertar. E se, ao fundo, um conjunto típico tocar maraca e charango em lugar de sinos, esse também será um presente.

 

 

**Fotos Theo Tajes

 

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