Claudia Tajes: Quantas vezes eu, tentando consertar um desenho, não piorei muito a situação?

Quadro espanhol de Jesus, restaurado: crianças, estudem artes (Foto: Divulgação)
Quadro espanhol de Jesus, restaurado: crianças, estudem artes (Foto: Divulgação)

Há alguns dias, passando na frente de um colégio, vi vários estudantes saindo de uma Feira de Artes. Deviam ter uns 10 anos e seguravam seus trabalhos com o orgulho e o cuidado do artista com sua obra.

Os trabalhos eram construídos com isopor e pintados com têmpera, como todos nós já fizemos na vida. Quer dizer, eu não fiz. Minha mãe adorava criar cartazes e outros trabalhos escolares que exigissem alguma engenhosidade na realização. Sempre que meu tema de aula foi uma peça artística para o Dia dos Pais, São João ou Semana da Pátria, sempre fiquei olhando enquanto ela recortava fotos, modelava figuras, passava Acrilex, colava brilhos.

Nem ajudar eu podia, habilidade com as mãos nunca foi o meu forte, e minha mãe deixava isso claro quando eu ousava tocar no trabalho em andamento. Era como ver os doces na confeitaria sem experimentar. Em compensação, minhas obras sempre ficavam mais bonitas do que as dos meus colegas. Só não sei como as professoras não desconfiavam, nem que fosse pela comparação da letra linda dela com os meus garranchos infantis. Dez com estrelinha para mim.

A única vez em que a minha mãe não fez um trabalho do colégio no meu lugar foi em uma Feira de Ciências. E só porque estava no hospital, em recuperação de uma cirurgia na coluna. Eu andava pela quinta série e lembro bem do desamparo quando a professora mandou pensar em um trabalho criativo que provasse alguma das teorias apresentadas em aula. E agora?

A Feira de Ciências seria no sábado. Por não saber o que inventar, fui deixando o problema para depois – já me disseram que todo adulto procrastinador teve, em sua origem, uma criança que deixava o problema para depois. Fato é que a sexta-feira pré-evento chegou, e eu não imaginava o que apresentar. Valia nota, ainda por cima. Sem falar que aquela era a grande oportunidade da criatura superar os trabalhos escolares caprichados da sua criadora. Se eu me saísse bem, dali em diante exigiria fazer eu mesma meus cartazes e maquetes. Imensa responsabilidade, a minha.

Na última hora, sem outra ideia, apelei para um ensinamento do Globo Repórter: a vida só surge se houver contato com o mundo exterior. De posse dessa informação, fechei hermeticamente uma fatia de presunto dentro de um vidro de conserva, escrevi o enunciado do próprio punho em uma folha de caderno e expus minha obra ao lado das criações coloridas dos meus colegas. Entre planetas de bolinhas de isopor, plantas exuberantes de papel celofane e bichos de massinha, os visitantes da Feira de Ciências passavam reto pelo meu experimento. Uma semana depois, na hora de desmanchar a instalação, o presunto estava podre, mas não tinha criado nenhum verme. Pelo menos não levei zero. Assim que pôde se movimentar, minha mãe assumiu meus trabalhos artísticos e científicos e tudo voltou ao normal. Não é que ela não deixasse meus talentos se desenvolverem, é que me faltavam pendores.

Quando uma senhora espanhola de 80 anos foi restaurar um painel em um santuário barroco e desfigurou a pintura, imediatamente me identifiquei. Quantas vezes eu, tentando consertar um desenho, não piorei muito a situação?

Acho que por tudo isso, vendo as crianças com seus trabalhos escolares, deu vontade de dizer a elas que continuem desenhando, que ouçam os professores de artes (e todos os outros), que visitem museus, que ouçam música, que façam música, que toquem instrumentos, que escrevam poemas, que escrevam histórias, que leiam livros, que leiam quadrinhos, que não caiam na besteira de achar que leitura é chatice, que dancem, que vejam filmes, que vejam tudo.

Não que exista fórmula para essa ciência inexata que é a vida, mas quase dá para garantir que é assim que vão surgir adultos melhores.

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