Claudia Tajes: Cinema em casa (literalmente)

Foto: Daniela Xu, BD,  27/08/2013
Foto: Daniela Xu, BD, 27/08/2013

O fim de semana passado era para ser o mais frio de 2017, apesar do sol que prometia dar as caras depois de tanta chuva. Alguns dias antes, uma pesquisa divulgou que caiu a venda de sabonetes entre os gaúchos. E isso que a temperatura até que andava amena. Depois de sábado e domingo, aí sim é que a seção de sabonetes e xampus deve ter criado teia de aranha.

Engraçado é que o primeiro friozão do ano, embora anunciado, é sempre meio desacreditado. Aposto que é alarme falso, a gente pensa. Daí sai só de camiseta e volta para casa transformado em pedra de gelo. Bem nesse final de semana de poucos graus centígrados, um grupo de alunos de Cinema da Unisinos tinha um curta-metragem para filmar. A princípio, era para ser em uma praça, começando ainda na madrugada gelada e deserta. Mas, sendo a nossa insegurança pública um transtorno bem maior do que o frio, decidiu-se por filmar em um apartamento. Eu estava lá e conto a epopeia.

A equipe, uns 18 meninos e apenas uma guria, foi chegando pelas seis da manhã. Móveis e objetos sumiram para deixar a sala livre para a filmagem. O apartamento, de tamanho bom para seu único morador, diminuía a cada tralha que chegava. E como chegavam tralhas. Informado na véspera, o senhor da portaria havia concordado com a função, desde que observadas as regras de silêncio e educação dos condomínios. Com certeza ele esperava uma câmera na mão de alguém e era isso. Estacionou um caminhão, e o pessoal começou a descarregar o equipamento: câmera profissional, luzes, som, cabos, caixas que não acabavam mais. Se fosse um filme, o nome seria Piti na Portaria.

Um aparte para falar dos atores da cidade. Ninguém aprenderia o cinema na prática se não fossem eles. Atrizes e atores profissionais se dispõem a filmar com os estudantes por 12 horas seguidas, dois dias inteiros, contribuindo com a própria experiência para enriquecer o trabalho dos meninos. João França, Néstor Monasterio, Frederico Vittola, Maria Galant, Léo Ritter, esses eu vi em ação nos últimos dias. Mas o elenco é enorme, tão talentoso quanto generoso.

Antes das sete da manhã, tudo pronto para filmar. Orientadas a não fazer barulho, 20 pessoas sussurravam no apartamento. De vez em quando escapava uma gargalhada, e o shhhhhhhhhhh geral ecoava mais que ela. Primeira cena: ator no sofá fala ao telefone enquanto assiste televisão. Depois do alô, ele diz, a voz alta, clara e grave como se recitasse Shakespeare: PQP, JOGA MUITO ESSE FDP. PQP e FDP antes das sete da manhã em um prédio familiar. Chega logo, nove da manhã. (Aqui, outro aparte para dizer que não houve sequer uma reclamação dos vizinhos, pelo contrário. Tolerância, gentileza e bom humor, que grandes incentivos para o cinema _ e a vida.)

Encontrar um apartamento para filmar pode não ter sido fácil, mas havia uma complicação maior: achar um restaurante que se dispusesse a emprestar as instalações para as filmagens de domingo. Nessa hora, prevendo incomodação ou prejuízo, a maior parte dos proprietários diz não _ e sem direito à réplica. Alguns alegam que vão consultar o sócio e nunca mais são encontrados. Nessa hora e já no desespero, o pessoal falou com o Adolfo Gerchmann, dono do lindo Orquestra de Panelas, e ouviu a resposta que não esperava: podem filmar. Gente fina, o antídoto contra os corações de gelo.

Enquanto os meninos se ocupavam com o curta, o longa Legalidade tinha cenas externas filmadas no centro _ e uma multidão de figurantes na madrugada fria pelo simples prazer de participar, de certa forma, da história. Para a gente que escolheu fazer um trabalho que não se conta pelo número de horas trabalhadas, até porque são tantas que enlouqueceriam os relógios-ponto, é uma esperança ver as coisas acontecendo a despeito de tudo. E bota tudo nisso.

*

Para terminar, três indicações à prova de frio. Os documentários Quem é Primavera das Neves e Cidades Fantasmas, os dois da Casa de Cinema, entraram em cartaz no dia 15 _ e são ótimos. E quer se divertir? Entra em www.sungadotiovaldir.com. Edu Mendonça e Thiago Prade, dois dos atores que mais inventam em Porto Alegre, mandam ver em esquetes muito engraçados. Diversão garantida e o melhor: não custa nada. É só entrar e rir.

 

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