Claudia Tajes: coisas que não se pode prever

Eu tenho um amigo que sempre fala “eventualmente”. E sempre que ele fala “eventualmente”, mesmo que o significado da palavra me desminta, a mim parece que tudo vai dar errado. Ele fala: eventualmente nos veremos no final de semana. E eu penso: jamais nos veremos no final de semana. Ele fala: eventualmente te passarão um novo trabalho. E eu penso: estou na miséria, nunca mais me passarão trabalho algum. “Eventualmente” entra na categoria de palavras que eu detesto, as palavras que não trazem certezas. São horríveis. Tudo o que depende de uma casualidade, que entra no terreno das probabilidades, que acontecerá – ou não – por motivos alheios a minha vontade, tudo isso me perturba. Nunca fiz mapa astral (desculpem a falta de poesia), mas só de me olhar a Amanda Costa disse: touro com ascendente em touro, sol em touro e lua em touro. Verdade. O mais estável dos signos vezes quatro. Isso significa, por exemplo, não mudar de humor durante o dia e cumprir o previsto até antes do previsto. Falta de poesia pouca é bobagem. Mas nessa Copa, ao contrário dos meus hábitos, tenho me grudado no “eventualmente” como esperança para ver os fracos vencendo os fortes. Eventualmente o Uruguai pode vencer a Inglaterra (foi lá e venceu). Eventualmente Gana pode empatar com a Alemanha (foi lá e quase ganhou). Eventualmente a Costa do Marfim pode ser campeã do mundo (será?).

:: Veja outras colunas de Claudia Tajes
:: Moda, comportamento, vida saudável e opinião: conheça outros colunistas de Donna

Eventualmente a nossa cidade poderá receber tantos turistas como nesses dias, mas só rebolando muito. No dia seguinte ao jogo de Holanda e Austrália, feriado de Corpus Christi, o amanhecer pegou vários gringos com as calças na mão, ainda voltando da Cidade Baixa e com os voos já saindo do aeroporto. Dei carona para dois australianos desesperados que atacavam todo carro que passasse às oito da manhã na 24 de Outubro. Mal agasalhados, com as roupas pulando da mala, Mark e Leyson (nome de jogador de futebol) não conseguiram fazer o aplicativo para chamar táxi funcionar e não sabiam que a poucos passos, na esquina da Mariland, vários carros esperavam por passageiros. De qualquer jeito, levei os dois até o Salgado Filho. O que disseram: achavam que Porto Alegre seria a pior parte da viagem e agora iam embora querendo ficar. Foi nessa hora que aquele gaúcho que sempre aparecia sentado em um mochinho nas antigas propagandas do Banrisul aflorou em mim e deixou pingar orgulho por todos os poros. Entenderam direitinho, aussies. É melhor porque é nosso.

00a1da1e

Azul, vermelho e branco: as cores mais quentes

E sobre as paixões eventuais na Copa? Apesar da imensa maioria masculina que tomou a cidade, a única pessoa que eu conheço a se enrabichar durante a invasão estrangeira da outra semana foi, justamente, um homem. Um jovem rapaz solteiro que saiu para comprar Epocler (a noite havia sido forte) e encontrou na farmácia uma australiana de quarenta e muitos com a filha de vinte e bem poucos, as duas perdidas diante da oferta de remédios para gripe. Ele ajudou na escolha da medicação, tomou uma cerveja com a dupla, combinou um jantar e não deu outra: até a partida delas, não largou a mãe nem por um minuto. Ainda ficou de visitar a percanta nas férias do final de ano. Sucesso no amor depois dos 40. Até isso a Porto Alegre da Copa tem.

00a1da1dRainha holandesa na arquibancada também

Já que a coluna é entregue muitos dias antes da publicação, impossível saber o resultado de Brasil e Camarões, Itália e Uruguai e outros jogos que interessam a quem está curtindo esse ópio do povo amplificado e glamourizado que chamam de Copa do Mundo. Eventualmente pode dar tudo errado para os times da gente. Mas essa é uma palavra que significa apenas uma possibilidade, jamais a condenação.

00a1da1cO genro australiano que mamãe pediu

Leia mais
Comente

Hot no Donna