Claudia Tajes: como assim?

Sempre vivi de escrever, seja como redatora de propaganda, com meus livritos, no jornal e, de vários anos para cá, como roteirista. Isso e mais muitos trabalhos extras, todos na mesma área, os populares frilas abençoada alternativa para reforçar o orçamento dos que vivem de escrever. É que a atividade não chega a sustentar a família de ninguém, com exceção de alguns honrosos e merecidos casos. E de outros nem tanto, vá lá.

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Nessa fase mais recente, trabalhando como roteirista frila ou contratada, tenho aprendido algumas lições bem interessantes. Uma delas é um conselho passado adiante pela escritora Adriana Falcão: em uma cena, o personagem nunca deve perguntar “como assim?”. Faz sentido. A pergunta “como assim?” condena a cena a ser resolvida com um papinho óbvio, o interlocutor respondendo o que poderia ser descoberto pelo personagem de forma mais inventiva. Que forma é essa, bom, aí depende do talento de cada um. No meu caso, ainda estou procurando as saídas.

Isso na ficção. No resto do tempo a gente abre o jornal, ou liga o rádio, ou vê um noticiário qualquer, e não tem outra reação que não seja perguntar: como assim?

A se confirmar que o governo vai parcelar salários acima de R$ 500: como assim? Além do absurdo da quantia, tem alguém ganhando R$ 500 no nosso Estado? Ou significa que apenas os coitados dos estagiários vão receber o salário integral? Como assim?

Mesmo não tendo votado no Sartori, mas com a disposição de torcer a favor de possíveis soluções apontadas por ele, li a entrevista feita pela Rosane de Oliveira e, a cada linha, sem conseguir juntar a resposta do governador com o que era perguntado, só me ocorria o óbvio: como assim?

O Judiciário não é atingido pelo tal “remédio amargo” do governo. Como assim?

Bom se só de política fossem feitos os espantos de um cidadão. Dois sujeitos de 23 anos estupram, matam e escondem dentro do sofá – onde um deles dormia – uma criança de cinco anos. Como assim?

Os meninos assassinados. O fotógrafo, o que caminhava no Parque Germânia, o que voltava para casa de ônibus depois do trabalho, o que saía de uma festa no carro do pai: como assim?

E os adolescentes negros e pobres que a PM está tirando à força dos ônibus que vão da Zona Norte do Rio para as praias da Zona Sul? Sem antecedentes, nem drogas – a maioria não tem nenhum dos dois -, eles passam o domingo nos plantões policiais e são liberados no final do dia. Como assim?

Também no Rio: o abonado de família ilustre com mais de 70 multas e sei lá quantos pontos na carteira, muitos por dirigir embrigado, embriagado estava quando atropelou um trabalhador – e ainda desceu do carro preocupado com os estragos no seu lindo veículo: como assim? E quem achou que o abonado em questão estava sendo exposto demais pelo fato de ser rico: como assim?

Quem vive de escrever tem, pelo menos, a vantagem de se socorrer na fantasia. Mas às vezes fica difícil. Pode mesmo parecer covardia. Uma coisa é certa: é bem mais fácil encontrar os desfechos das cenas na ficção – de preferência, dizem meus chefes, de forma inventiva. Já na vida real, como nos maus roteiros, às vezes só resta perguntar: como assim?

A justificativa para as nuvens que ilustram a coluna é um pouco de leveza, e de beleza, em dia de assunto pesado. Parece uma boa saída ou é caso de perguntar: como assim?

Fotos Theo Tajes*

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