Claudia Tajes: Como colocar o mundo dentro de Canoas

Olívia Byington, Luciano Alabarse e Gregório na gaitada – Foto: Gustavo Garbino/divulgação
Olívia Byington, Luciano Alabarse e Gregório na gaitada – Foto: Gustavo Garbino/divulgação

A Flip, famosa Festa Literária Internacional de Paraty, começou no dia 29 de junho com o seu já consagrado jeito de acontecer: inscrições caras, convidados brasileiros e estrangeiros de muito nome, debates do tipo cabeça, polêmicos, imperdíveis – ou tudo ao mesmo tempo. Pelo seu conjunto, e merecidamente, a Flip atraiu a atenção de todos os (poucos) suplementos culturais da imprensa. Entre os vários convidados, Svetlana Aleksiévich, autora que ganhou o Prêmio Nobel, e o biógrafo e principal difusor da obra de Clarice Lispector, Benjamin Moser. Enquanto isso, mais quietinha, mas não sem fazer barulho, a Feira do Livro de Canoas inaugurava no dia 25 de junho com atrações de causar inveja à Flip. Por exemplo, Maria Bethânia recitando poesias, cantando e divando (do novíssimo verbo “divar”, que significa “ser musa”). Ah, Benjamin Moser também veio.

Arthur Japin e Benjamin Moser: da Flip para Canoas  - Foto: Paula Vinhas, divulgação

Arthur Japin e Benjamin Moser: da Flip para Canoas – Foto: Paula Vinhas, divulgação

Enquanto a Flip é quase que um evento de elite – seja pelo preço ou pelos rigores da sua curadoria –, a Feira do Livro de Canoas se oferece, generosa, para leitores, escritores, alunos, professores, passantes, para quem quiser. E é lindo ver que todos querem. Os debates e palestras estiveram sempre lotados. As escolas mandaram turmas inteiras. Contrariando a máxima de que os adolescentes, mais ainda os de escolas públicas, não estão nem aí para nada, o pessoal acompanhou tudo com interesse, fazendo silêncio na hora do silêncio e participando na hora de participar. Quem já se viu diante de um auditório quase vazio – ou, pior, cheio e indiferente – em uma apresentação entende o quanto essa atitude dos alunos de Canoas é comovente.

Faz tempo que participo da Feira de Canoas. Tenho sorte de, volta e meia, ser chamada pela organização. Não sei como, porque teve um ano em que precisei ficar trabalhando e dei uma de Tim Maia: não apareci. Em outra edição, essa há séculos, faltou condução para a volta e alguém me perguntou o que eu preferia, esperar por carona ou aproveitar um veículo que estava indo para a garagem naquele instante. Na hora, pensei em um micro-ônibus, uma van, transporte de estudantes, algo assim, e escolhi o tal veículo. Era um ônibus mesmo, linha Mathias Velho, indo para conserto em Porto Alegre. Fui sozinha com o motorista, todas as janelas abertas, só nós na BR sem movimento. Era tanto vento que foi como ir para casa de moto. Histórias da longa estrada da vida que a gente acumula por aí.

Bethânia divando no palco – Foto: João Milet Meirelles, divulgação

Bethânia divando no palco – Foto: João Milet Meirelles, divulgação

As escritoras tiveram espaço na programação da Feira, começando pela patrona, Maria Rigo, e pela homenageada, Martha Medeiros – que ganhou até um auditório com o nome dela. Entre os muitos convidados de fora, Gonçalo Tavares, Vladimir Safatle, Gregório Duvivier, Jorge Mautner, Jards Macalé. Autores gaúchos de todas as gerações estiveram lá. E quase aposto que a palestra do Benjamin Moser foi melhor do que a da Flip. Justificativa para o bairrismo: aqui, pela primeira vez, o norte-americano que ama Clarice Lispector e o Brasil dividiu a mesa com Arthur Japin, seu companheiro de muitos anos, que lançou um livro sobre Santos Dumont.

Em um ano de rebanhos esqueléticos como esse, que bom encontrar uma cidade que investe na leitura e nos livros. Já disse algum sábio, “é na adversidade que os homens se agigantam”. As Feiras do Livro, pelo jeito, também.

Para encerrar, fiquei de mandar um recado para os alunos do professor Delmar Furtado, da escola Jussara Polidoro, de Canoas. Lição do dia: nenhum livro é tão ruim que não tenha algo de bom, disse Cervantes. Nem que seja economizar no pacote de dados do celular, digo eu. Vamos ler, gurizada.

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