Claudia Tajes: Confiança em baixa

Prepara: olha a fila no raio-x do aeroporto (Foto: Mateus Ferraz)
Prepara: olha a fila no raio-x do aeroporto (Foto: Mateus Ferraz)

O restaurante é bem conhecido. Mais caro que bom, talvez, mas são muitos os lugares assim em uma cidade como o Rio de Janeiro – ainda mais em época de tantos turistas, quando os preços sobem na cara dura e, sensação de consumidora, sem fiscalização alguma.

Já havia ido algumas vezes àquele restaurante, mas nunca tão tarde, depois de uma sessão de cinema no domingo de noite. Também não havia estado na varanda, de onde dava para ver o solitário segurança parado na esquina. Antes das onze, alguns funcionários do estabelecimento começaram a sair, incluindo o garçom que havia nos atendido pouco antes. E é aí que começa esta coluna.

Cada funcionário que saía parava diante do segurança e abria a mochila para mostrar que não estava levando nada que não lhe pertencesse. O segurança, bem jovem, dava uma olhada constrangida nos pertences dos colegas. Depois eles se despediam e os funcionários iam embora atrás de seu ônibus, metrô, o que fosse, enquanto o rapaz seguia guardando a esquina. Até a próxima mochila para conferir.

Pode olhar a minha bolsa, sim. Tem algumas horas? (Foto: Lea Macedo)

Pode olhar a minha bolsa, sim. Tem algumas horas? (Foto: Lea Macedo)3030

Não sei se é prática de todos os restaurantes, mas a cena incomodou. Então o dono confia que nada vai acontecer nas, sei lá, doze horas em que seus funcionários dão duro dentro da casa, mas precisa comprovar, na saída, que nenhum deles está levando um saleiro, um vidro de azeite, algumas cebolas, um copo?

Uma vez fui testemunha dessa mesma cena em uma loja de alimentação natural de Porto Alegre, no Moinhos de Vento, de uma simpática senhora já de idade. Mais velhas eram também as atendentes, funcionárias de uma vida inteira. Pois um dia vi uma dessas atendentes sendo obrigada a abrir a bolsa para o filho da proprietária dar uma conferida. Poderia ela roubar uma bala de própolis, uma empada de ricota, um chá de boldo, talvez? Eu ia sempre lá, mas depois daquilo perdi a vontade. Não faz muito passei pela frente do lugar e a funcionária continuava no balcão. Com certeza abrindo a bolsa todos os dias para mostrar que não surrupiou uma gelatina de algas, um pote de iogurte, uma barrinha de cereais.

Sei que esse procedimento acontece muito em supermercados e lojas, já houve casos de funcionários que denunciaram seus patrões por isso. Que a gente tenha que abrir a bolsa para o vigilante do banco olhar, OK – já me convenceram de que é necessário. Que agora precise tirar tudo das sacolas e até ser examinado, em casos extremos, para embarcar no avião, entende-se. Os perigosos terroristas brasileiros fotografados com armas de paintball nos mostram que todo cuidado é pouco. Mas um trabalhador expor a intimidade da sua mochila depois de uma jornada inteira de trabalho, daí já não é mais precaução. É apenas um sintoma de que, tanto quanto confiança, está nos faltando respeito.

Amigas empreendedoras sempre merecem propaganda.

Reprodução

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A Lu Vilella comemora os 21 anos da Bamboletras com as prateleiras cheias de lançamentos, confirmados & experimentos ali no Nova Olaria. Já dá até para reservar com ela o novo livro do Philip Roth (foto), que só sai no fim de agosto.

A jornalista Lelei Teixeira, que é pequeninha só por fora, agora tem um blog que fala de inclusão:
Isso Não é Comum

E a publicitária Léa Macedo, que sempre foi a produtora mais chique do Rio Grande, inaugurou uma consultoria de estilo para ajudar todo mundo a se encontrar. Contato: terapiadeestilo1@gmail.com

 

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