Claudia Tajes: Contas que não fecham

Se a rainha Cersei está endividada, imagina os plebeus | Foto: reprodução
Se a rainha Cersei está endividada, imagina os plebeus | Foto: reprodução

Mesmo em condições quase ideais, com trabalho garantido e salário em dia, tem muita conta que não fecha. Pesquisas e mais pesquisas mostram que a maioria dos brasileiros está encalacrada com os bancos. E os bancos, claro, não têm com os clientes a mesma benemerência que o governo demonstrou por eles agora mesmo, perdoando dívidas biliardárias. Se o cliente está devendo, vai pagar até o último centavo. Ou isso, ou a vida vira um inferno.

Em um episódio recente de Game of Thrones, um banqueiro aparece para cobrar as dívidas da rainha Cersei. Ela é a maldade em forma de loira, um monstro capaz das maiores atrocidades, como bem sabe quem acompanha a série. Pois fiquei com pena da bandida. Sem perder a majestade, como é do seu feitio, Cersei tomou do representante do Banco de Ferro a dura que nenhum dos muitos inimigos que cultiva foi capaz de lhe aplicar – ao menos até o fechamento desta edição. Quando ela pede 15 dias para pagar a dívida inteira em uma só parcela, o banqueiro ainda tripudia: que pena, nosso banco adora os juros que o reino paga. Uma cena bem representativa da queda das potências diante dos bancos.

O que se dirá das pessoas.

Sobre as contas que não fecham, existem algumas que desafiam a inteligência do cidadão. As equipes econômicas fazem raciocínios com zeros demais para serem compreendidos por quem sobrevive da atividade mais desvalorizada que há, o trabalho. Leio que o governo federal acaba de aumentar a previsão de rombo no orçamento de R$ 139 bilhões para até R$ 156 bilhões. A culpa, alegam, é de gastos como o 13º salário dos servidores e pensionistas. Mas peraí, 13º salário é (ou era) uma despesa da qual nenhum empregador escapa. Vai dizer que esqueceram de computar?

Claro que sempre há os custos de última hora, aqueles que não se tinha como prever enquanto os garçons abriam as garrafas de Veuve Clicquot para comemorar a chegada de 2017. Ou R$ 4.163.669 bilhões em emendas parlamentares para os deputados votarem pelo arquivamento das investigações sobre a corrupção passiva do presidente, por exemplo. Ou a anistia de R$ 8,6 bilhões para os produtores rurais em três anos – salgado, mas garantiu os votos da bancada ruralista a favor do Temer. São despesas realmente pesadas, que só um bom aumento nos combustíveis e cortes radicais em programas sociais, bolsas, financiamentos para a ciência e verbas de pesquisa podem amenizar.

Para quem achou muito a multa de R$ 823 milhões que o Paris Saint-Germain pagou ao Barcelona para levar Neymar, olha esta: a dinheirama das emendas do Temer daria para comprar cinco Neymares. Cinco. Comparando assim, o jogador brasileiro mais caro da história foi uma pechincha para os franceses. Que valha o investimento e seja feliz. Às vezes, leio uma ou outra manifestação de gente com raiva dos valores que a negociação do Neymar envolveu. Já eu tenha raiva é de mim, que nunca joguei nada e não me vejo com perspectivas de botar os bois na sombra tão cedo. E nem mais tarde, aliás.

É que as contas não fecham – principalmente para os funcionários estaduais. Imagina chegar ao fim do mês e receber R$ 650. O parcelamento dos salários vem atormentando as famílias há 18 meses, mas R$ 650 é crueldade. Menos que o salário mínimo. Menos que o aluguel de um apartamento de um quarto em um bairro mais afastado de Porto Alegre. Quase o preço de um ingresso para assistir ao Paul McCartney. Nem metade de uma mensalidade nos colégios mais caros da cidade. Suficiente para comprar só parte dos remédios de que tantos precisam. Insuficiente para a comida do mês. Luz, água, transporte, o presente de aniversário dos filhos: pode esquecer. R$ 650 não é uma parcela, é uma vergonha.

Há pouco ficamos sabendo que a Secretaria Municipal de Educação vai modificar o programa Adote um Escritor, experiência bem-sucedida que há muitas administrações leva o autor para dentro das salas de aula. A prefeitura compra livros para as bibliotecas, os alunos trabalham as obras e, na sequência, escritor e jovens leitores conversam cara a cara, coração a coração, como bem definiu o professor Luís Augusto Fischer. O argumento da diretora pedagógica da Smed para capar o projeto, “fracos índices de proficiência em leitura”, é facilmente rebatido pelo Fischer: justamente o contato com textos de interesse do aluno é que pode aumentar a proficiência em leitura.

E assim a gente vai tentando fechar as contas enquanto o homem do Banco de Ferro não bate à porta para nos cobrar as dívidas. Nesses dias estranhos, só o que aumenta mais que o saldo devedor é o descrédito. Que fase.

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