Claudia Tajes: Conversa de banheiro

Não parece que os banheiros públicos já foram mais literários no sentido das frases escritas nas paredes dos cubículos? Era uma diversão ler o que o excesso de criatividade de alguns deixava de lembrança para o próximo usuário. Uma ida aos banheiros da Engenharia, da Geologia e da Filosofia da UFRGS sempre valia uma frase espirituosa ou um poema para repetir na mesa do bar. Antes que alguém reclame, não se deve escrever na parede, eu sei. Mas entre uma grosseria e uma poesia, fico com a segunda opção.

:: Veja todas as colunas de Claudia Tajes em Revista Donna

Acho que ninguém mais escreve em parede de banheiro porque o pessoal não larga do celular nem em um momento, digamos, tão privado. Também a leitura de periódicos e livros caiu em desuso nessa sagrada hora por conta dos smartphones. A única coisa que se pode fazer é apelar para o bom senso da turma: se for ao banheiro, pode levar o celular. Mas, por favor, evite as selfies.

Historinha dos tempos digitais. Estava um rapaz sentado em um banheiro público quando ouviu, vinda do cubículo vizinho, uma voz de homem perguntando “Oi, tudo bem?”. O rapaz respondeu: “Tudo”. A voz: “O que você está fazendo?”. O rapaz: “Provavelmente, o mesmo que você”. E a voz: “Posso ir aí agora?”. O rapaz se indignou: “Claro que não, eu gosto de privacidade”. E a voz: “Olha, eu vou ter que desligar. Tem um idiota na patente do lado respondendo tudo o que eu pergunto”.

00b42bb3

Ameaça para a clientela

Os cartazes de banheiro com instruções de higiene são outro capítulo curioso. Um amigo contou que, no trabalho, dele, a ordem é: “Dê quantas descargas forem necessárias”. Eliminar os vestígios pode ser mais importante do que economizar água. Há poucas semanas, em um restaurante bem metidinho, encontrei o seguinte cartaz: “Não suba na privada. Não urine no chão. Jogue o papel no cesto. Não grite”. Pedir para não urinar no chão já me pareceu estranho, mas o que dizer de “não grite”? Sabe lá que coisas exóticas devem acontecer no sanitário daquele selecionado local.

00b42bb2Cuidado ao abandonar a cena do crime

Há alguns dias uma marca de papel higiênico inaugurou na rua Oscar Freire, que concentra as lojas mais caras de São Paulo, um banheiro público de luxo. Para quem quiser entrar, dizem os administradores. O evento contou com a presença de atrizes e da socialite que assina o projeto, a Jade Jagger, filha do Rolling Stone de mesmo sobrenome. Com luminárias de design, paredes revestidas com pastilhas de vidro, espelhos grandes, pias enormes, poltronas de couro, velas e obras de arte feitas com papel higiênico, o sanitário chique integra a série “Banheiros Espetaculares” e fica aberto até o dia 25 de novembro. Curioso é que foi inaugurado na mesma semana em que o governo de São Paulo anunciou o fechamento de 94 escolas da rede estadual. O dinheiro investido no tal banheiro é da iniciativa privada (literalmente), que o usa como bem entender. Dinheiro que vai (literalmente) pelo ralo. Já que parece estar sobrando, não seria melhor para a imagem da marca se fosse utilizado em uma parceria para manter as escolas em funcionamento, por exemplo? Vai saber. Do jeito que a coisa anda, posar para foto na frente de banheiro fino rende mais curtidas nas redes sociais que salvar uma escola. Mundo, mundo, vasto mundo.

00b42bb5Decoração clássica: poesia na parede

Leia mais
Comente

Hot no Donna