Claudia Tajes: Da figuração para o mundo

Há alguns dias trabalhei na produção do clipe de um artista e, na hora marcada, estávamos prontos para começar: locação preparada, diretores de cena e de fotografia a postos, luz pronta, o protagonista esperando para entrar em cena. Com tudo isso, não dava para gritar “ação” por uma razão muito simples. Os figurantes não chegavam.

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O roteiro do clipe previa 40 pessoas se divertindo em um bar. No horário marcado, 18h, só uma menina havia se apresentado, e isso por ser amiga da maquiadora – que também seria figurante. Arrumadas, as duas sentaram para esperar os outros 38 participantes. Vestido e imóvel, com medo de amassar o figurino, o cantor nem se mexia. A diretora de produção cobrava: onde estão todos? O resto da equipe se ocupava com o cafezinho frio e as bolachinhas moles. E nem sombra dos figurantes.

Já eram quase nove da noite e poucos gatos pingados, porém de fé, se espalhavam pelo ambiente. Precisávamos de tudo concluído até a meia-noite, horário combinado com o pessoal que nos alugou o lugar. As seis horas de filmagem originais já estavam reduzidas a três. Entrei em pânico e coloquei um pedido no meu Facebook: “Alô, amigos, sejam figurantes em um clipe agora e ganhem sanduíche e uma cerveja no final”. Figuração a cabresto é isso.

(Reprodução) Brad Pitt figurante: já com cara de astro

(Reprodução) Brad Pitt figurante: já com cara de astro

No fim das contas, deu tudo certo. Começamos a filmar pelas nove e meia com um número de pessoas menor do que o inicialmente pensado, mas já deu para ver nas imagens que o trabalho ficou bonito. Desde esse dia, fiquei fascinada pela instituição do figurante. Parece desimportante diante dos atores principais, mas que nada. Se ele não estiver ali, e muitas vezes em troca de um mero sanduíche, não existe cena. Que, para os mais ambiciosos, pode valer um papel maior.

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Em um capítulo da novela Velho Chico, o personagem Santo fazia um discurso para os sindicalizados rebeldes – e o foco deveria estar todo nele. Acontece que, bem ao lado, um figurante decidiu atuar. Enquanto Santo falava, o homem gesticulava, mexia a boca, balançava a cabeça, fazia umas expressões de apoio (acho). Impossível prestar atenção no discurso do protagonista com aquele sujeito lá, tentando ganhar o Oscar de Melhor Figurante. Também nas muitas cenas de multidão de Game of Thrones percebe-se o candidato a astro se esforçando para sair da paisagem. Se é para morrer, ele usa os dois segundos em que a espada lhe atravessa o corpo para deixar na tela a cara mais pungente de homem espetado que já se viu na história do cinema. É o que se chama de valorizar a oportunidade.

(Reprodução) Stallone antes de conquistar a fama aos murros

(Reprodução) Stallone antes de conquistar a fama aos murros

Hoje os figurantes, a exemplo de quase tudo no cinema, já não precisam ser todos de verdade como na época de Gandhi, o filme, que em 1982 contou com 300 mil deles para mostrar a Índia se levantando. Agora é possível multiplicar as pessoas até quantidades absurdas, como se vê no próprio Game of Thrones. Recurso que, obviamente, não tínhamos na filmagem do nosso clipe. Pesquisando para escrever a coluna, encontrei nomes de atores famosos que começaram na vida fazendo figuração. Adriana Esteves foi vista em cenas da novela Vale Tudo. Juliana Paes figurou em Malhação. Em 1987, Brad Pitt foi figurante em três filmes. Sharon Stone e Sylvester Stallone fizeram figuração em filmes de Woody Allen. Da próxima vez em que os nossos figurantes não aparecerem, vou mudar de estratégia. Em lugar de um sanduba, oferecerei fama e fortuna. Dependendo do empenho de cada um, pode ser o início de uma linda carreira. Está aí o Brad que não me deixa mentir.

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